Desafios da saúde pública na Amazônia
A vasta floresta amazônica apresenta desafios únicos para a saúde pública, onde a geografia e o tempo de deslocamento são fatores cruciais. No Amazonas, a implementação de políticas de saúde não pode se restringir ao planejamento técnico convencional; é imprescindível que essas políticas sejam ajustadas às especificidades regionais. A secretária municipal de Saúde de Eirunepé (AM), Nathaly Nascimento Rodrigues, enfatiza que o Brasil ainda direciona suas ações maioritariamente para áreas acessíveis por rodovias, negligenciando comunidades que dependem dos rios.
O município de Eirunepé é um exemplo claro dessa realidade. A localidade, isolada por terra, só é acessível por avião ou barco, estando a 1.160 km de Manaus. Para se ter uma ideia, uma viagem pelo rio pode durar até 21 dias, enquanto o trajeto aéreo leva apenas 1h50. A região abriga mais de 170 comunidades, e as condições de transporte variam drasticamente. Por exemplo, a comunidade de Ubim, localizada no rio Gregório, pode ser alcançada em mais de 13 horas de lancha, mas essa viagem pode se estender a até seis dias em embarcações menores durante a seca.
Desafios da Logística e Burocracia
Segundo Nathaly, a falta de adaptação das políticas nacionais à realidade local é um grande entrave. “Os programas que chegam até nós muitas vezes não são viáveis, pois dependem de rodovias. Aqui não temos estradas”, afirma, destacando que unidades móveis de saúde, como as voltadas para a saúde da mulher, não conseguem operar efetivamente em áreas fluviais.
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A escassez financeira também agrava o cenário. Cada viagem da Unidade Básica de Saúde (UBS) fluvial demanda cerca de R$ 100 mil, e o repasse federal cobre apenas uma fração dos custos. O restante recai sobre o município, complicando ainda mais a situação, conforme explica a secretária.
A burocracia para a ampliação das equipes de saúde da família também é um desafio significativo. Há solicitações pendentes no Ministério da Saúde para aumentar o número de agentes comunitários de saúde, essenciais para atender as diversas comunidades distantes.
Iniciativas Locais e Impactos Positivos
A Folha de S.Paulo acompanhou uma expedição à comunidade do Ubim, onde foi inaugurado o primeiro posto de saúde da região, um esforço que combina apoio privado e uma abordagem inovadora de telessaúde, além de uma equipe médica que visita a área a cada dois meses. As intervenções de saúde se adaptam ao estilo de vida dos moradores, concentrando-se em lesões relacionadas ao trabalho rural e doenças comuns, como diarreias decorrentes das variações da água.
A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) tem atuado junto a essas comunidades, construindo cem unidades de banheiros e sistemas de filtragem de água para melhorar as condições de higiene. Moradores que recentemente obtiveram acesso a banheiros e água tratada compartilham histórias emocionantes sobre como essas iniciativas transformaram suas vidas. “É ganhar dignidade”, afirma Doriana Ferreira da Silva, uma mãe de dois filhos beneficiada pela melhoria no saneamento.
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As medidas têm mostrado resultados promissores, com uma redução de até 90% nas queixas de diarreia em comunidades atendidas por agentes de saúde. Estudos recentes indicam que a instalação de saneamento adequado pode diminuir em 33% as doenças parasitárias.
Logística e Planejamento de Saúde Adaptado
O planejamento das ações de saúde precisa levar em conta o calendário das águas. Durante a cheia, é possível acessar áreas remotas com mais eficiência, mas na seca, os desafios aumentam, como descreve Nathaly: “Se a embarcação encalhar, temos que esperar a próxima cheia para continuar”.
Mickela Souza Costa, gerente do programa SUS na Floresta da FAS, destaca a importância de adaptar as políticas públicas de saúde às realidades locais. Ela menciona a dificuldade de acessar plataformas digitais do SUS em áreas sem sinal de telefonia, um claro exemplo do abismo digital que afeta a saúde na região.
A Logística como Obstáculo à Saúde
A prefeita de Eirunepé, Áurea Maria Ester Marques, aponta a logística como um dos principais desafios da gestão pública na área da saúde. A dificuldade de acesso aos produtos e serviços eleva os custos, dificultando ainda mais a implementação de políticas adequadas. “Os recursos existem, mas são insuficientes para atender a tantas demandas. Os custos específicos da Amazônia precisam ser respeitados”, afirma.
A situação se torna ainda mais crítica em casos de emergências, onde pacientes graves são frequentemente transferidos para Manaus, uma operação custosa que pode afetar até 300 pessoas mensalmente.
Em entrevista, a secretária de Atenção Primária do Ministério da Saúde, Ana Luiza Caldas, afirmou que as políticas voltadas para as comunidades ribeirinhas estão sendo transformadas para atender áreas mais isoladas. O financiamento federal para saúde mais que dobrou e o número de embarcações de saúde está em expansão. Porém, Ana também reconhece que a seca compromete as ações de saúde.
Os moradores da comunidade de Ubim enfrentam altos custos, gastando até R$ 5.000 em viagens para o acesso a serviços de saúde. Em situações de emergência, o apoio financeiro e logístico se torna uma questão de vida ou morte, e a realidade é que muitos moradores acabam se endividando para obter atendimento médico. Para enfrentar a escassez de profissionais de saúde, o ministério está investindo em telessaúde, uma estratégia que visa trazer os serviços de saúde até as comunidades sem a necessidade de deslocamento.
