Turismo como ferramenta para valorizar os terreiros baianos
Na Bahia, cerca de 7,6 mil terreiros ligados aos cultos de matriz africana estão cadastrados na Federação Nacional do Culto Afrobrasileiro (Fenacab), com a maioria concentrada em Salvador e Região Metropolitana. Essas casas de culto, espalhadas por todo o estado e especialmente nas 18 cidades da Baía de Todos-os-Santos, representam diferentes tradições religiosas e carregam um legado de resistência negra que ainda é pouco explorado pelo turismo.
O supervisor nacional da Fenacab, Marcelo Santos, defende que o turismo pode ajudar a desmistificar essas tradições, promovendo visitas que respeitem o caráter sagrado dos terreiros. Ele destaca locais emblemáticos em Salvador, como os parques do Abaeté e São Bartolomeu, além de terreiros tradicionais de candomblé, como Oxumaré, Gantois, Casa Branca, Afonjá e Aganjú. Fora da capital, o Recôncavo e a Ilha de Itaparica também são considerados importantes polos do turismo inter-religioso.
Preservação e desafios dos terreiros na Ilha de Itaparica
Um exemplo dessa ligação entre turismo e preservação cultural está no Terreiro Tuntun Olukotun, localizado na entrada dos bairros Barro Branco e Bela Vista, área reconhecida como remanescente de quilombo. Fundado em 1850, o terreiro mantém sua tradição de culto aos egungun, que representa a alma dos ancestrais, e está cercado por uma área de Mata Atlântica original, fundamental para suas práticas religiosas.
Além do Tuntun Olukotun, outros seis terreiros da mesma tradição estão na região, incluindo o Omo Ilê Agboulá, outro importante local de culto na Ilha de Itaparica. Atualmente, os terreiros lutam contra a especulação imobiliária que ameaça suas áreas verdes. O Tuntun também busca o título de Patrimônio Imaterial junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), um processo complexo que visa garantir maior proteção e visibilidade.
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O sacerdote Miguel Roque Filho, líder do Tuntun, destaca os desafios enfrentados para comprovar a antiguidade e relevância do terreiro, já que a casa passa por um processo semelhante de tombamento junto ao Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac) há 13 anos. A casa mantém uma presença constante de estudiosos e interessados na cultura afro-brasileira, e tem ampliado sua comunicação através das redes sociais, como o Instagram (@terreiro_tuntun), onde divulga eventos e calendário de festas.
Roteiros turísticos e a importância da articulação local
O guia de turismo Gleison Rocha, que atua na Ilha de Itaparica, inclui o Tuntun Olukotun em seus roteiros de turismo religioso, que abrangem também terreiros como Oba Ladê, Agboulá, Babá Omi Guian e Olu Ayê Azoany. Ele ressalta a diversidade cultural presente nesses locais e a importância de fomentar o turismo afro por meio de credenciamento de guias e divulgação oficial dos roteiros pelas prefeituras de Itaparica e Vera Cruz.
Em levantamento realizado para avaliar os impactos da ponte Salvador-Itaparica, foram catalogados 124 terreiros na região, reforçando o potencial turístico e cultural do local. Contudo, Gleison aponta que muitas casas enfrentam dificuldades estruturais e necessitam de apoio para se tornarem mais acessíveis e preparadas para receber visitantes.
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Inovações e adaptações nos terreiros de São Félix
Do outro lado da Baía de Todos-os-Santos, o Terreiro Raiz de Ayrá, em São Félix, mostra como as casas de culto de matriz africana também se adaptam para garantir sua sobrevivência e ampliar o diálogo com o público. Sob o comando de Babá Tacunlecy Sangodemiladè e Iyá Bilú de Oxum, o terreiro de 109 anos tem investido na formalização como associação cultural para captar recursos e oferecer programação que inclui cursos e saraus, sem interferir nos rituais.
As mudanças também envolvem o horário das festas, que foram ajustadas para atender melhor ao público idoso e para garantir segurança, diante da violência na região. Babá Tacunlecy utiliza a fotografia para registrar e valorizar a cultura afro, desmistificando preconceitos e divulgando os rituais com respeito e beleza, inclusive em viagens recentes à África.
Esses exemplos mostram que os terreiros baianos, além de guardiões da tradição religiosa, estão se consolidando como importantes pontos turísticos que promovem a cultura afro-brasileira, fortalecendo a valorização histórica e a resistência negra na Bahia.
