Cidade em Transformação
Santana do Livramento, localizada na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, está passando por uma mudança significativa no seu perfil turístico. Tradicionalmente conhecida pelo comércio nos free shops de Rivera, a cidade começa a se estabelecer como um verdadeiro destino de experiências, o que se reflete no aumento do fluxo de visitantes, na diversificação de roteiros e nas melhorias na economia local.
O movimento se intensificou a partir de 2024, com a operação do Trem do Pampa, mas é o resultado de um longo processo que foi impulsionado pela expansão das vinícolas, pela gastronomia local e por experiências ligadas ao bioma Pampa.
“A evolução foi notável. Sempre tivemos vinícolas e atrações, mas não eram tão divulgadas. Hoje, podemos dizer que estamos em uma vitrine que não existia antes”, afirma Vera Reis, da agência Corticeiras, que atua na região há mais de 20 anos.
Crescimento Explosivo no Setor
Os números que cercam esse crescimento são expressivos. De acordo com operadoras do setor, a quantidade de visitantes aumentou consideravelmente após a chegada do trem e a introdução de novos produtos turísticos.
“No passado, em alguns finais de semana, recebíamos um grande grupo de 25 pessoas. Hoje, vemos finais de semana com três ou quatro grupos simultaneamente”, observa Vera.
A Vinícola Almadén, um dos principais atrativos da região, também sentiu o impacto positivo, passando de cerca de 80 visitantes mensais para aproximadamente 1,2 mil pessoas por fim de semana, conforme dados apresentados pela Giordani Turismo.
“Esse crescimento é fenomenal. Ele movimenta toda a economia, já que esses turistas consomem na cidade”, diz Cristiane Tomazini, gerente de marketing da vinícola.
Um Novo Perfil de Turista
Além do aumento no volume, o perfil dos turistas também está mudando. O turismo de compras agora é complementado por visitantes que buscam experiências culturais, históricas e produtivas.
“O trem trouxe um público completamente diferente. Não é mais aquele visitante que vem apenas para comprar e ir embora. Agora temos pessoas que desejam conhecer a história, a cultura e a produção local”, destaca Adriana Munhoz, coordenadora do Trem do Pampa.
Esse novo público tende a ficar por mais tempo na cidade, ampliando o impacto econômico. Já se observa uma demanda por roteiros de três a cinco dias, que incluem Livramento, o Uruguai e outras áreas do Pampa.
“Recebemos muitos turistas de fora, como mineiros, paulistas e cariocas, que vêm para ficar vários dias”, completa Vera.
Desafios e Demandas Emergentes
O crescimento do turismo também traz desafios para a estrutura local. A demanda crescente resultou na ampliação de equipes, na contratação de guias e na reorganização de serviços.
“Mudou tudo. Hoje precisamos de mais profissionais, mais transporte e mais organização. A cidade inteira sente esse impacto”, afirma Vera.
A ocupação hoteleira reflete esse movimento. Nos períodos de alta demanda, as reservas se esgotam rapidamente.
“Em fevereiro, já não havia mais vagas disponíveis para grupos grandes em setembro. Isso mostra que precisamos de uma estrutura melhor para atender esse crescimento”, diz.
Eventos especiais também destacam as limitações. Em finais de semana com programação intensa, os visitantes enfrentam dificuldades para encontrar hospedagem na área central. Além disso, a diferença cambial tem impulsionado o fluxo de uruguaios para o lado brasileiro.
Gargalos Estruturais Persistem
Apesar do avanço, o setor ainda enfrenta importantes gargalos. A infraestrutura urbana, que historicamente foi voltada ao turismo de passagem, não está acompanhando as novas demandas.
A rede hoteleira é vista como um dos principais desafios. “Atendemos bem ao volume atual, mas precisamos melhorar a qualidade. Hoje, temos um público mais exigente”, salienta Vera.
A gastronomia local também apresenta limitações, especialmente para receber grupos grandes. “Recentemente, levamos dois grupos de 40 pessoas para o mesmo restaurante e isso comprometeu o atendimento. Precisamos de mais estrutura para esse tipo de operação”, inicia Vera.
Outro desafio é a falta de mão de obra qualificada, com um número ainda reduzido de guias turísticos e profissionais capacitados. “Não havia essa demanda anteriormente. Agora estamos começando a formar esse mercado”, diz Adriana.
Um Futuro Promissor pela Frente
A Giordani Turismo, que tem mais de três décadas de atuação no setor e desenvolve o projeto do Trem do Pampa há cerca de 14 anos, acredita que Santana do Livramento está vivendo um momento semelhante ao que a Serra Gaúcha enfrentou no passado.
“O Vale dos Vinhedos, há 30 anos, estava passando por uma fase similar. Hoje, vemos um potencial equivalente aqui”, afirma Cristiane.
A estratégia é posicionar a região como um destino de contemplação e desaceleração, explorando suas paisagens e identidade cultural.
“É um turismo que valoriza a paisagem, o tempo e as experiências. Essa abordagem se alinha com o momento atual”, explica.
Embora o crescimento seja evidente, o turismo receptivo ainda representa uma parcela pequena das operações na área.
“Estamos apenas começando. No entanto, é uma grande aposta para o futuro”, garante.
Ampliar o tempo de permanência dos visitantes envolve a criação de novos produtos. Hoje, além do trem, o destino oferece city tours, roteiros enoturísticos, experiências gastronômicas e atividades ligadas à produção local, como azeites e queijos.
“Raramente alguém viaja para fazer apenas uma atração. O desafio é mostrar que existem muitas opções para explorar aqui”, observa Cristiane, enquanto Vera complementa: “Quem visita uma vez, tende a voltar em busca de algo diferente. Isso exige que a cidade esteja sempre inovando e criando novas experiências”.
O objetivo agora é consolidar a nova imagem do destino. “Precisamos mostrar por que Livramento deve ser a escolha na próxima viagem”, conclui Cristiane. “É um processo. Estamos no início, mas nunca se falou tanto em turismo na cidade como agora”, resume Vera.
