Atividades culturais que transformam vidas
A Semana de Cultura no Sistema Prisional, evento inovador que acontece no Rio de Janeiro, está proporcionando uma experiência única não apenas para os participantes, mas também para o público em geral. No terceiro dia de atividades, as iniciativas se expandiram além das prisões, envolvendo diversas localidades e promovendo uma rica troca cultural entre pessoas privadas de liberdade, egressos e profissionais envolvidos no sistema penal.
Este evento pioneiro, que está programado para ser replicado em outras regiões do país, faz parte da estratégia Horizontes Culturais, inserida no Plano Pena Justa. O lançamento oficial da iniciativa ocorrerá na próxima sexta-feira, 10 de abril, com a presença do presidente do CNJ, Ministro Edson Fachin. Segundo ele, “essa semana é crucial para todos que estão no sistema de justiça. Precisamos garantir que aqueles que saem do sistema possam ser melhores do que quando entraram, e a arte desempenha um papel transformador fundamental nesse processo”.
Vivências que enriquecem a alma
No Presídio Evaristo de Moraes, as atividades começaram com uma formação de leitores promovida pela UniRio, que discutiu obras como “Capitães de Areia”, de Jorge Amado, e “A Cor Púrpura”, de Alice Walker. Enquanto isso, outras pessoas assistiam ao filme “Fé para o Impossível”, de Ernani Nunes. A programação incluiu também uma oficina de pintura, liderada por Tito Bertolucci e Igor Izy, onde os participantes expressaram seus sonhos em pequenas telas. O clima ficou ainda mais vibrante com a apresentação do rapper Nego Bala, que instigou a participação ativa do público.
Na quadra da unidade, o influenciador Ruan Jullet lançou um convite: “Quero ouvir vocês”, e a resposta veio através de canções e relatos emocionantes das pessoas privadas de liberdade. O juiz Luís Lanfredi, que acompanhou a ação, ressaltou a importância da arte: “Ela reconfigura trajetórias e oferece novas possibilidades, algo que é vital para quem enfrenta situações de vulnerabilidade ao longo da vida”.
A arte como ferramenta de transformação social
As atividades nas unidades femininas também foram marcadas por momentos significativos. Na Penitenciária Talavera Bruce, uma roda de poesia, organizada pelo Instituto Casa Poema, permitiu que as participantes declamassem textos e trocassem experiências. Simultaneamente, uma conversa com a influenciadora Anaterra Oliveira gerou reflexões sobre novos caminhos na vida das presentes. Na Unidade Materno Infantil, a exibição do filme “Central do Brasil” levou a um debate sobre a realidade das mulheres, mediado pela desembargadora federal Simone Schreiber.
Fora dos muros das penitenciárias, a cidade também serviu como cenário para experiências enriquecedoras. Em Campos dos Goytacazes, um cine debate no Escritório Social reuniu os participantes em torno dos curtas “Lapso” e “Marés da Noite”, seguidos por uma roda de conversa sobre a vivência no sistema penal.
Um olhar renovado sobre a cultura
No centro do Rio, egressos, familiares e profissionais do Escritório Social de Bangu visitaram o Museu de Arte do Rio (MAR) e o Largo das Artes, onde puderam apreciar a exposição “Coexistir–Coabitar”, que apresenta obras criadas por pessoas ligadas ao sistema prisional. Outro grupo de egressos, apoiados pela Fundação Santa Cabrini, teve a oportunidade de conhecer o icônico Cristo Redentor, uma experiência que marcou um novo começo.
A visita guiada ao Museu de Arte Contemporânea (MAC) de Niterói também foi histórica para muitos dos participantes, que tiveram seu primeiro contato com um museu, acompanhados por educadores que facilitaram a interação. O dia culminou com a apresentação da peça “Silêncio em Casa”, encenada por mulheres privadas de liberdade, que discutiu temas como a violência e a invisibilidade, transformando experiências de vida em arte e garantindo um espaço de expressão no sistema prisional.
Celebrando a arte e a cultura
Durante toda a semana, diversas atividades culturais visam não apenas proporcionar entretenimento, mas também servir como um caminho para a reconstrução de trajetórias de vida. O evento, que conta com a curadoria de Carollina Lauriano e a coordenação técnica de Karla Osorio Netto, integra as ações do programa Fazendo Justiça, promovido pelo CNJ em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). Ao dar visibilidade a práticas culturais já existentes nas unidades prisionais, a Semana de Cultura se destaca como um marco na promoção da arte como uma ferramenta de transformação social.
