Uma Nova Perspectiva sobre Guimarães Rosa
A nova biografia escrita por Leonencio Nossa oferece uma visão ampliada sobre a vida de Guimarães Rosa, desconstruindo a imagem do autor como o “menino do mato”, uma expressão utilizada pelo poeta João Cabral de Melo Neto. Em suas entrevistas, Rosa se referia à sua origem familiar de maneira que, em parte, não corresponde à realidade. Nascido em Cordisburgo, suas raízes estão mais ligadas ao comércio do que à pecuária, já que sua família havia deixado a atividade rural. A cidade natal de Rosa era um ponto de encontro, um centro de troca de ideias e mercadorias, o que contribuiu para a formação do jovem escritor em um contexto que mesclava o Brasil rural e urbano, especialmente em um período de industrialização, que teve início no século XIX. Essa infância multifacetada ajuda a entender por que sua obra se destaca, sem se restringir apenas ao regionalismo ou à literatura urbana moderna.
“A palavra ‘sertão’ na obra dele gera confusão, pois oculta a vida que ele levou em Cordisburgo”, explica Nossa. “Rosa não nasceu em um Brasil totalmente rural, mas em uma época de transição. Em sua casa, havia revistas estrangeiras, que o conectavam com o mundo.” A presença de Belo Horizonte em sua vida desde cedo foi um fator importante, uma vez que a cidade se destacava como um espaço vibrante de informações e acontecimentos.
Um Autor Além do Estereótipo Rural
Contrariando a imagem esperada de um homem “do lombo do cavalo”, Mariano Valério, personagem de uma reportagem escrita por Rosa em 1947, expressou sua surpresa ao ver fotografias do autor montado a cavalo: “Não entendo como conseguiram aqueles retratos. Seu Guima mal sabia montar, sempre segurando no arcão da sela com medo de cair.” Para Nossa, “o Sertão de Rosa é um universo dinâmico, repleto de suas interações e relações econômicas e políticas. Ele nunca afirmou que seu sertão era exclusivamente rural. A obra dele foi moldada por estudos que, com o tempo, posicionaram essa região como um local isolado, quando na verdade é muito mais complexa.”
Segundo o biógrafo, a originalidade de Rosa não reside em uma radical reinvenção da linguagem, como a de James Joyce, mas sim em seu esforço para reunir e potencializar as oralidades do Brasil. O escritor buscou incorporar não apenas o português sertanejo, mas também elementos da cultura africana, indígena e até os sons do meio ambiente, criando uma linguagem capaz de capturar a complexidade de suas narrativas.
“Sua obra é um esforço para criar uma situação em que todas as linguagens brasileiras possam coexistir”, destaca Nossa. “Há tentativas de entender sua obra como algo de laboratório, quando, na verdade, é uma criação viva que dialoga com as palavras do cotidiano.”
Redescobrindo Suas Raízes Através de Graciana
Leonencio Nossa também traz à luz a figura de Graciana Teixeira Lomba, bisavó de Rosa, cuja história foi pouco explorada em estudos anteriores. Graciana, possivelmente ex-escravizada, viveu um amor proibido com Francisco de Assis Guimarães, que acabou se casando com outra mulher devido a pressões familiares. A ancestralidade africana de Rosa nunca havia sido discutida antes, conforme o biógrafo.
Embora esquecida por gerações, Graciana sempre foi lembrada na família como uma figura quase divina, e seu nome era mencionado em momentos de perigo para os descendentes. Durante seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, Rosa fez questão de citar as duas bisavós maternas, a branca e a negra.
“Graciana não foi apenas uma lembrança da infância, mas uma presença constante na vida de Rosa”, afirma Nossa. “Ele fez várias referências a mulheres negras em sua obra, mesmo que, como muitos escritores de sua época, não conseguisse escapar de certos estereótipos.”
O Engajamento Político de Rosa
A trajetória diplomática de Rosa o colocou em situações delicadas nas tensões políticas da época. Suas correspondências durante sua estadia na Alemanha nazista, recheadas de ironia dirigidas a Hitler, chamaram a atenção da polícia secreta. “Tutu, covinha, lombinho, pimenta-malagueta, dois limõezinhos. Se Hitler provasse, veria que há coisas melhores do que ‘Die Wacht am Rhein’”, escreveu, escarnecendo do ditador.
Durante a Segunda Guerra, Rosa e sua companheira, Aracy de Carvalho, se envolveram em ações para ajudar judeus. Enquanto Aracy atuava de maneira mais visível, até escondendo refugiados em seu carro, Rosa também arriscava sua posição ao assinar vistos que facilitavam a saída de judeus da Alemanha, apesar de saber que isso poderia comprometer sua carreira diplomática.
“Rosa tomou atitudes rebeldes que o colocaram em risco”, observa Nossa. “Como escritor, ele foi criticado por não ser engajado, algo que o incomodava. Ele sempre defendeu que seus personagens, como os sertanejos e boiadeiros, viviam conflitos reais e profundos, mostrando um tipo de engajamento que não se expressa em discursos, mas na forma como ele construía a narrativa do país.”
Reconhecimento e Refúgio no GLOBO
No cenário cultural do Rio de Janeiro, Rosa enfrentou desafios. O Jornal do Brasil, em uma série de críticas, promovia uma campanha contra ele, não reconhecendo sua importância. “Acredita em Guimarães Rosa?”, questionava o jornal em entrevistas a escritores que frequentemente respondiam negativamente.
Sua coluna “Guimarães Rosa conta…” foi publicada aos sábados e trouxe à tona alguns de seus contos mais conhecidos, incluindo “A terceira margem do rio”. Este e outros doze textos fariam parte do livro “Primeiras estórias” (1962). “O GLOBO foi crucial para ele nesse momento, um espaço onde pôde continuar a publicar e inovar, mesmo quando a crítica tentava rotulá-lo como um autor do passado”, conclui Nossa.
