Direção e musicalidade que dão alma ao sertão
O espetáculo “Auto da Catingueira” ganha novas interpretações no palco do Cultura Artística, contando com a direção e cenografia de André Heller-Lopes, a direção musical do maestro ucraniano David Rabinovich, líder do Apollo Ensemble, e o arranjo assinado por Henrique Gomide. Essa montagem traz uma experiência artística que combina tradição e inovação, colocando em cena a riqueza cultural do sertão brasileiro.
Elomar: voz do sertão entre a reclusão e a criação
Conhecido por seu perfil reservado, Elomar conversou por telefone, preferindo falar sobre sua obra e processo criativo. Morador de Vitória da Conquista, ele divide seu tempo entre a cidade e a região rural, onde mantém a Casa dos Carneiros, propriedade da família há gerações, dedicada à criação de carneiros, cabras e gado miúdo. Ele evita entrevistas, especialmente com jovens, afirmando que sua música é destinada à “veiança”, um público mais maduro.
“Moro e demoro no sertão”, diz Elomar, ampliando o conceito para além do espaço físico. Ele lamenta a perda dos vaqueiros encourados e dos tropeiros, figuras que, segundo ele, não existem mais. “O sertão esbagaçou”, afirma com pesar.
Uma homenagem e um desejo de circulação
Desde o ano passado, Elomar apresenta o show “Uma cantoria para Vital”, em homenagem a Vital Farias (1943-2025), seu parceiro no projeto mais popular que participou, o Cantoria. Essa série de três álbuns, lançada pela gravadora Kuarup, contou também com Xangai e Geraldo Azevedo. Na época, Elomar e Vital Farias foram apelidados de Beatles pela produção, enquanto Xangai e Geraldo Azevedo eram comparados aos Rolling Stones — referências que Elomar conhece apenas superficialmente, destacando a canção “Eleanor Rigby”.
Elomar busca levar “Auto da Catingueira” a São Paulo após passagens por Belo Horizonte, Recife e João Pessoa, onde o espetáculo já alcançou um público significativo. Ele procura patrocinadores para viabilizar a apresentação na capital paulista e usa bom humor para pedir apoio: “Joga o laço aí, vai que cai no pescoço de alguém”.
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Temática sertaneja e musicalidade singular
Ao contrário das óperas que geralmente exploram temas urbanos, “Auto da Catingueira” mergulha na realidade sertaneja, abordando os valores e as tradições do sertão. Elomar define sua música como bucólica e profundamente ligada à cultura nordestina, com destaque para o desafio técnico das violas.
Ele reconhece que sua obra não é universal no sentido tradicional, mas ressalta a importância da temática do amor, que é universal. A música e os costumes do sertão, segundo ele, têm raízes que remontam à Renascença e à Idade Média europeia, refletidas nas semelhanças entre os menestréis medievais e os violeiros nordestinos.
Influências literárias e espírito sertanejo
Elomar revela que sua inspiração vem de leituras de cordel e romances de cavalaria, como as obras de Alexandre Dumas, o que moldou sua visão sobre a continuidade dos valores medievais no Nordeste brasileiro, especialmente na Bahia.
Ele conheceu o movimento literário de Ariano Suassuna apenas quando sua obra já estava quase concluída e só teve contato pessoal com o autor dois anos antes da morte dele, em 2014. Sua obra, segundo ele, está mais ligada à espiritualidade do que a uma religião específica, pois foi criado na fé cristã protestante, com uma forte influência do pensamento luterano e calvinista.
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Crítica à política e reflexões sobre o público
Sobre a política brasileira, Elomar é direto: chama-a de “patifaria” e “promíscua”, evitando se aprofundar no tema. Ele reafirma que sua música é para um público que valoriza a “veiança” e a calma, contrapondo-se ao ritmo acelerado do mundo atual.
Ele também expressa saudade da década de 1980, quando tinha mais saúde e disposição, dizendo que seu sucesso foi modesto e mais reconhecido pelos parceiros do Cantoria do que por ele mesmo.
Relacionamento com a mídia e planos para o futuro
Elomar confessa não ter grande apreço por entrevistas, especialmente para pessoas jovens, e que seu público está consolidado. Entre suas maiores vontades está a gravação de seus 36 mil compassos sinfônicos de óperas e antífonas, que totalizam cerca de 17 horas de música, uma parte culta de sua produção pouco conhecida pelo público.
Por fim, ele lamenta a transformação do sertão e a perda de suas tradições, reforçando que muitos jovens hoje não sabem mais arrear ou montar um cavalo, símbolos de uma cultura que ele gostaria que permanecesse viva. Através do “Auto da Catingueira”, Elomar oferece um convite para revisitar e preservar essa riqueza cultural, agora em circulação em várias cidades e com planos para chegar a São Paulo em breve.
