Reflexões sobre o Exílio e a Literatura
No coração de São Paulo, o Teatro Cultura Artística será palco do Festival Poesia no Centro, programado para ocorrer entre os dias 15 e 17 de maio. O evento tem como destaque as vozes de três poetas que, apesar de suas histórias marcadas pelo deslocamento, encontram na palavra uma forma de resistência e expressão. Entre os participantes estão Egana Djabbarova, Stefanie-Lahya Aukongo e Paula Abramo, cujas trajetórias pessoais refletem a complexidade do exílio e da busca por identidade.
Egana Djabbarova, que nasceu em Ecaterimburgo na Rússia, tem uma história familiar que remonta à Revolução Russa de 1918, quando sua vida foi drasticamente alterada após a tragédia envolvendo o czar e sua família. Com raízes azerbaijanas, Egana se mudou para Hamburgo, na Alemanha, onde lida com questões de pertencimento e identidade, que se evidenciam em suas obras. “As pessoas sempre olham para mim e fazem perguntas, como se eu não pertencesse a lugar nenhum”, compartilha.
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Fonte: acreverdade.com.br
Stefanie-Lahya Aukongo, por sua vez, traz a memória do Massacre de Cassinga, evento que marcou a história de sua família. A mãe de Aukongo sobreviveu ao ataque das forças sul-africanas em um campo de refugiados em Angola e, ao se estabelecer em Berlim, a filha herdou as memórias desse passado doloroso. “A constante pergunta é ‘de onde você vem?’ e isso me faz refletir sobre as raízes que carrego, mesmo vivendo em um país diferente”, relata.
Por fim, Paula Abramo, que reside na Cidade do México, carrega a história de dois exílios em sua família, sendo um deles o de seu pai contra a ditadura brasileira. “Meu avô fugiu para a Bolívia por conta da repressão a comunistas nas décadas de 1930, e agora eu também vivo essa questão de deslocamento”, explica. A artista, membro de uma família notável que inclui a atriz Lélia Abramo e o ilustrador Lívio Abramo, utiliza sua poesia para explorar a herança cultural e as experiências de exílio.
O festival vai muito além da simples apresentação de poemas; será um espaço de discussão sobre como o exílio molda as vozes e as narrativas contemporâneas. As poéticas de Egana, Lahya e Paula se entrelaçam em um diálogo sobre o deslocamento, a resiliência e a luta por um lugar no mundo, refletindo sobre a condição de exílio que não é exclusiva dos migrantes.
Poesia e a Tradição do Exílio
Historicamente, a poesia sempre foi um espaço privilegiado para discutir experiências de amor, dor e, evidentemente, o exílio. O legado de poetas que também viveram essa condição é vasto. Safo, a renomada poeta da Grécia Antiga, é frequentemente citada como uma figura que conheceu o exílio e cujos versos reverberam até hoje. Da mesma forma, Dante Alighieri, ao ser exilado de Florença, encontrou na escrita de ‘A Divina Comédia’ uma forma de criticar e refletir sobre sua condição. Em sua obra, ele posiciona Bonifácio VIII, o papa que conspirou para seu desterro, no oitavo círculo do inferno.
O século XIX também viu a produção literária de Gonçalves Dias, que, mesmo longe de sua terra natal, expressou sua saudade e pertencimento em versos que celebram as belezas do Brasil. Já no século XX, a literatura se tornou um refúgio para poetas expatriados, como o palestino Mahmoud Darwish, o russo Joseph Brodsky e o brasileiro Ferreira Gullar, que encontrou em seu exílio argentino a força para criar obras impactantes, como o famoso ‘Poema Sujo’.
Portanto, o Festival Poesia no Centro não apenas celebra a arte da poesia, mas também ilumina as questões de identidade, pertença e a experiência do exílio. Com entrada gratuita, os interessados podem garantir seus ingressos através da plataforma Sympla, e estão convidados a mergulhar em uma programação que promete tocar em temas universais por meio da voz íntima e poderosa dos poetas.
