Preservação de Sementes: Um Legado Familiar
Há 34 anos, Rosana Martuchelli Nogueira, então com apenas 17 anos, começou a perceber as mudanças no Vale dos Lúcios, em Teresópolis (RJ). Filha de agricultores, ela vivenciou de perto a luta de seus pais para manter suas sementes a cada nova safra. “Quando meu pai ia plantar feijão, ele pegava as sementes do armário, mas deixava o restante para o consumo”, recorda.
Os grãos, mesmo após longos períodos armazenados, mantinham-se em bom estado. O pai de Rosana explicava que isso se devia ao “pó de onde a semente foi cultivada”, uma afirmação que mais tarde ganhou respaldo científico por meio da Embrapa. Ela conta: “Comecei a estudar e descobri que um microrganismo protege o feijão e o milho do caruncho. Meu pai, sem saber, estava fazendo tudo certo ao utilizar esse microrganismo”.
Hoje aos 51 anos, Rosana é uma das responsáveis pela preservação de sementes ancestrais de milho e feijão. Essas variedades não passaram pelos processos modernos de melhoramento genético, que dão origem a híbridos e transgênicos, frequentemente comprados a cada safra. Sua inquietação com a crescente popularização dos híbridos a levou a resgatar o plantio de sementes crioulas na região, um trabalho que continua até os dias de hoje.
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Um Banco de Sementes em Palmeira
Distante mil quilômetros de Teresópolis, em Palmeira (PR), a agricultora Ana Andréa Jantara teve um impulso semelhante para criar seu banco de sementes. “Com o tempo, percebi que essas sementes crioulas estavam se tornando cada vez mais raras. Quis resgatá-las para que meus filhos também pudessem ter acesso a esses alimentos”, explica.
Atualmente, Ana Andréa abriga mais de 200 variedades de sementes crioulas, abrangendo grãos, legumes e hortaliças. Seu trabalho a transformou em uma referência na região, onde recebe sementes de outros produtores que estão encerrando seus plantios. “Cada semente traz consigo a história de um povo, de pessoas e de comunidades inteiras”, ressalta.
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A Importância das Sementes Crioulas
O engenheiro agrônomo Leandro Barradas, professor da Escola Técnica Estadual de Andradina, destaca a relevância dessas espécies. Ele explica que as sementes crioulas são importantes por sua alta rusticidade e adaptação ao ambiente de origem, onde foram cultivadas por gerações. Além disso, elas garantem soberania e autonomia aos agricultores.
“As sementes híbridas te amarram a um pacote tecnológico todo, encarecendo os custos de produção. Na região de Andradina, plantar milho transgênico pode custar entre R$ 5 mil e R$ 6 mil por hectare, enquanto o milho crioulo no sistema agroecológico tem um custo de R$ 1 mil a R$ 2 mil”, detalha Barradas, evidenciando as vantagens econômicas do cultivo de variedades tradicionais.
O Resgate Cultural e Alimentar
A preservação das sementes crioulas não é apenas uma questão econômica, mas também um resgate cultural. Em um mundo onde a agricultura enfrenta diversos desafios, como a mudança climática e a padronização alimentar, iniciativas como as de Rosana e Ana Andréa são fundamentais para a manutenção da diversidade e da segurança alimentar.
Esses guardiões de sementes, ao buscarem resgatar práticas agrícolas ancestrais, contribuem para uma produção mais sustentável e resiliente. A luta deles pela preservação da biodiversidade é um exemplo de como a cultura alimentar pode ser mantida viva, mesmo diante das pressões da modernidade.
