Caruru e fé: a celebração que atravessa gerações na Bahia
Setembro é um mês que reverbera com devoção em várias partes do Brasil por conta das homenagens a São Cosme e São Damião. Na Bahia, essa celebração ganhou uma dimensão especial, estreitamente ligada à tradição do caruru. Mais do que um prato típico, o caruru reúne ingredientes que carregam simbolismos religiosos e costumes que se perpetuam de geração em geração. A relação da festa também é marcada pela presença dos Ibejis, divindades infantis cultuadas nas religiões de matriz africana.
O caruru é um momento de encontro que vai além da comida: traduz fé, gratidão e solidariedade. Essa prática acontece em terreiros, lares e espaços comunitários, cada qual com suas particularidades. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registra manifestações baianas que associam as festividades de Cosme e Damião às tradições afro-brasileiras e aos Ibejis, destacando, em muitos casos, a participação especial das crianças.
Tradição popular e sincretismo religioso na Bahia
Padre Edson Menezes, vigário-geral da Arquidiocese de Salvador, explica que a oferta do caruru a São Cosme e São Damião está ligada à religiosidade popular e ao sincretismo religioso, mas não faz parte da prática oficial da Igreja Católica. Segundo ele, essa tradição nasceu da cultura popular, que buscou driblar as restrições impostas aos africanos escravizados durante a colonização, criando uma associação entre orixás e imagens católicas.
“No período colonial, diante da proibição de cultuar seus orixás, os escravos criaram o sincretismo relacionando entidades africanas a imagens da Igreja Católica para preservar sua fé”, explica o padre. Essa interculturalidade deu origem a uma celebração que, embora não oficial, permanece viva como parte da cultura baiana.
O Iphan também confirma essa relação entre as festividades de Cosme e Damião, as tradições afro-brasileiras e os Ibejis na Bahia. Em algumas manifestações, as crianças assumem uma posição central, sendo servidas antes dos demais participantes, o que reforça o caráter comunitário e de cuidado da celebração.
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Fonte: jornalvilavelha.com.br
Quem foram São Cosme e São Damião?
Historicamente, São Cosme e São Damião são irmãos gêmeos conhecidos por exercerem a medicina e atenderem gratuitamente. Por isso, são lembrados como protetores dos profissionais de saúde. Padre Edson ressalta que, apesar da relação popular entre os santos e os Ibejis, São Cosme e São Damião eram adultos e médicos dedicados à caridade.
“A associação entre essas figuras e as entidades africanas é fruto do sincretismo religioso, mas a história cristã destaca que esses santos foram médicos adultos que praticaram muita caridade”, comenta o vigário-geral. A tradição do caruru, apesar de não integrar a liturgia católica, permanece como uma expressão cultural importante na Bahia.
Promessa que mantém vivo o caruru há 30 anos
Entre as histórias que ilustram essa tradição está a de Sandra Maria Rocha, ialorixá do Ilê Àse Ogun Wa Omin, localizado em Cajazeiras, Salvador. Há três décadas, ela realiza o caruru no dia 27 de setembro, cumprindo uma promessa feita pela saúde da filha, que enfrentou escarlatina aos três anos. O pai de santo indicou a promessa como forma de proteção, e após a recuperação da menina, o caruru passou a ser uma celebração anual.
“Há 30 anos distribuo o caruru. Foi uma promessa feita pela saúde da minha filha, que teve um problema grave. Hoje, ela também participa dessa tradição”, conta Mãe Sandra. A celebração reúne moradores e visitantes de diversas regiões, fortalecendo laços comunitários e culturais.
O significado dos sete quiabos e a continuidade da cultura
Um dos elementos que marcam o caruru são os sete quiabos inteiros, embora essa prática não seja uniforme em todos os terreiros. Para Mãe Sandra, eles simbolizam a continuidade da tradição e a transmissão do conhecimento às futuras gerações.
“Os sete quiabos representam a esperança de que nossas crianças possam preservar e passar adiante essa cultura oral tão rica e essencial”, explica a ialorixá. A presença das crianças na celebração está ligada à simbologia dos Ibejis e reforça o sentido de generosidade, comunhão e prosperidade, pilares que mantêm a tradição viva.
Caruru: expressão de amor e partilha na cultura baiana
Com o tempo, o caruru transcendeu o cumprimento de uma promessa pessoal e se consolidou como um momento de convivência comunitária. A mesa farta e a distribuição do alimento colocam a partilha no centro dessa festa.
Para Mãe Sandra, o caruru é sinônimo de amor ao próximo. “Quem chega aqui é recebido com carinho e afeto. Essa celebração contagia pela felicidade de estarmos juntos, reforçando nosso valor como seres humanos.”
Entre o sagrado e o popular, o caruru de São Cosme e São Damião revela diferentes formas de viver a fé e a cultura. Para algumas famílias, é uma promessa; para outras, uma manifestação cultural ou religiosa. O que permanece em comum é o ritual de preparar, oferecer e compartilhar o alimento, mantendo viva uma tradição que atravessa gerações na Bahia.
