Estrategias para Cumprir Suas Resoluções de Ano Novo
A coordenadora do Curso de Psicologia da Faculdade BP, Jonia Lacerda Felicio, acredita que estabelecer metas para o futuro e criar rituais em datas significativas são maneiras eficazes de nos conectarmos internamente e impulsionarmos nossas vidas. Esses momentos de recomeço são oportunidades de autoconhecimento, onde destacamos o que realmente importa para nós. Culturalmente, essas práticas são valorizadas por sua intenção positiva e pela capacidade de proporcionar um sentido de direção e propósito individual.
Entretanto, um estudo da Universidade de Scranton revela que apenas 8% das pessoas conseguem cumprir suas resoluções. A maioria desiste ainda no primeiro semestre do ano. Mas o que leva a essa desistência? Muitas vezes, isso ocorre devido à formulação de metas excessivamente ambiciosas, que podem acabar desmotivando. A boa notícia é que existem estratégias que podem ajudar a manter o foco e a motivação desde o início.
A psicóloga Ana Karazin, do Espaço Einstein Bem-Estar e Saúde Mental, sugere que as metas devem ser realistas e alinhadas com a vida de cada um, evitando a simples repetição de expectativas sociais. Segundo ela, metas bem definidas proporcionam direcionamento, aumentam o senso de propósito e estimulam tanto o autoconhecimento quanto a motivação. Por outro lado, metas rígidas e inatingíveis podem gerar frustração e um sentimento de fracasso.
Para ajudar na definição de metas, Karazin apresenta três passos fundamentais:
- Conecte a meta aos seus valores: Antes de se perguntar “o que quero mudar?”, questione “por que isso é importante para mim neste momento?”. Metas ligadas a valores pessoais, como saúde e aprendizado, tendem a gerar uma motivação mais duradoura.
- Seja específico, mas flexível: Substitua metas vagas, como “quero cuidar mais de mim”, por objetivos claros, tipo “quero reservar dois momentos por semana para autocuidado”. Essa abordagem traz clareza, mas permite flexibilidade quando imprevistos surgem.
- Defina poucas metas prioritárias: Um excesso de metas pode resultar em sobrecarga cognitiva e dificultar a execução. Focar no que realmente importa ajuda na tomada de decisões diárias.
Arthur H. Danila, coordenador do Programa de Mudança de Hábito e Estilo de Vida do Instituto de Psiquiatria da USP, enfatiza que a definição inadequada de metas pode prejudicar a saúde mental. Metas que são irreais podem gerar frustração, enquanto aquelas baseadas em comparações sociais, como “todo mundo está viajando” ou “todo mundo está em forma”, podem provocar ansiedade, sem trazer satisfação.
Transformando Metas em Hábitos
Com as metas bem estabelecidas, é hora de colocá-las em prática. Karazin recomenda transformar metas em hábitos, utilizando comportamentos já existentes no dia a dia. Por exemplo, ao invés de apenas afirmar “quero caminhar mais”, você pode dizer “depois do café da manhã, caminharei por 20 minutos”.
Outra dica é diminuir o tamanho do primeiro passo. Quando nos sentimos cansados ou desmotivados, é comum escolher a opção mais fácil. Se o objetivo for “ler mais livros”, comece com “ler 5 páginas por dia”. Para metas como “exercitar-se”, você pode iniciar apenas vestindo a roupa de treino e saindo de casa. E se seu foco for “organizar as finanças”, comece por “abrir o extrato e anotar os 3 principais gastos”.
Danila também sugere planejar o ambiente para favorecer a adoção de novos hábitos. Se você deseja comer de forma mais saudável, por exemplo, deixe frutas à vista e evite comprar produtos ultraprocessados. Para melhorar a qualidade do sono, mantenha o celular longe da cama e crie um ambiente tranquilo.
Preparação para Obstáculos e Monitoramento do Progresso
Um aspecto crucial é antecipar possíveis obstáculos que podem surgir e planejar como superá-los. Karazin recomenda refletir sobre o que pode dificultar a realização da meta e como lidar com essas dificuldades. Essa preparação ativa o pensamento estratégico e ajuda a evitar o abandono da meta ao primeiro desafio.
Além disso, o monitoramento do progresso é fundamental. Danila garante que observar o próprio avanço gera uma sensação positiva de conquista e permite identificar padrões em seu comportamento. Para isso, anote os dias em que cumpriu suas metas em um calendário ou utilize aplicativos. Sem acompanhamento, é fácil subestimar as vitórias e superestimar os erros.
A armadilha do “tudo ou nada” é outra distorção comum. Muitas pessoas se sentem desmotivadas ao não atingirem suas metas perfeitamente. Danila sugere a adoção da mentalidade do “melhor possível hoje”: se você não conseguiu fazer 30 minutos de atividade, faça 10. Essa flexibilidade é essencial para a manutenção das metas a longo prazo, permitindo que as falhas não se tornem barreiras insuperáveis.
Apoio Social e Autocompaixão
Contar com apoio social é fundamental. O incentivo de amigos e familiares pode aumentar a motivação e a aderência às metas. Combinar atividades com amigos ou compartilhar suas metas ajuda a criar um ambiente favorável à mudança.
Evite também comparações com outros, pois isso frequentemente leva à ansiedade e à sensação de inadequação. Concentre-se em sua própria jornada, longe das “vidas perfeitas” expostas nas redes sociais.
Cuidar dos pilares básicos da saúde, como sono, alimentação e atividade física, é vital para o sucesso nas suas resoluções. Danila destaca que a falta de descanso e hábitos saudáveis dificulta a manutenção de metas. Assim, o autocuidado não deve ser visto como um luxo, mas como uma base necessária para mudanças significativas.
Por fim, Karazin ressalta a importância de cultivar a autocompaixão. Reconhecer que falhar faz parte do processo é essencial para não desistir. Aqueles que praticam a autocompaixão tendem a se recuperar mais rapidamente de falhas e a persistir em hábitos saudáveis.
