O início de uma jornada para além dos céus
Mário Queiróz não se contentava com caminhos convencionais. Apesar de sua ligação inicial com o paraquedismo, ele desejava algo além para sua vida. A ânsia por liberdade o impulsionou a buscar novos horizontes, distantes da rotina e dos limites impostos. Na época em que filósofos e idealistas promoviam a liberdade plena do indivíduo, Mário começou a enxergar o mundo sob outra perspectiva, não mais do alto, mas através das lentes da fotografia.
Encontros que moldaram um artista
Em Itabuna, onde a cultura fervilhava, Mário encontrou na fotografia um novo meio de expressão. Inspirado pelas conversas com Newton Maxwel, fotógrafo e antigo sapateador, ele iniciou suas primeiras experimentações com câmeras. Sua mudança para Salvador trouxe novas oportunidades e conexões fundamentais. Na capital baiana, ele encontrou amigos e mentores que o ajudaram a transformar a fotografia em arte, tal como admirava nas revistas internacionais. Trabalhando em jornais locais, abraçou a liberdade pregada pelo Festival de Woodstock e adotou o nome Mário Bandeira, símbolo de seu ideal por um mundo sem amarras.
Vivências e conquistas entre música e imagem
O convívio com a banda Novos Baianos marcou uma fase importante de sua carreira. Mário fotografou o grupo, organizou apresentações musicais e até eventos esportivos nas cidades por onde passaram. Em Itabuna, com a ajuda do amigo Reinaldo Sepúlveda, o grupo aproveitou uma temporada única na fazenda de cacau, experiência que ficou registrada em suas imagens. De volta à sua cidade natal, expôs seu trabalho e conquistou reconhecimento, conciliando fotos artísticas e encomendas para revistas e jornais.
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Fonte: cidaderecife.com.br
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Fonte: feirinhadesantana.com.br
Novos caminhos e desafios em Porto Seguro
Com o crescimento de Porto Seguro, Mário mudou-se para a cidade do Descobrimento e entrou em contato com pessoas de diversas partes do mundo. Lá, viveu momentos de grande intensidade, ora em situações luxuosas, ora enfrentando adversidades. Colaborei com ele em vários projetos para jornais como O Globo, Correio da Bahia, A Região e Agora, além de revistas especiais. Cada trabalho era recebido com entusiasmo pelo público, resultado da riqueza visual e informativa que suas fotos proporcionavam.
Personalidade e desafios pessoais
Mário era um fotógrafo e retratista nato, atento aos detalhes e às histórias por trás das imagens. Antes de cada viagem, eu compartilhava com ele meus costumes, que muitas vezes contrastavam com os seus hábitos, especialmente os relacionados aos seus “digestivos” proibidos no carro ou na empresa. Apesar disso, ele mantinha uma postura tranquila, sabendo que logo estaria entre amigos no destino final. Seu cuidado com a saúde física, evidenciado pelas caminhadas regulares e corpo musculoso, contrastava com uma vida pessoal marcada por desafios.
Momentos de tensão e superação
Durante uma cobertura em Canavieiras, próximo a um tiroteio, pedi que registrasse o ocorrido para uma matéria. No entanto, diante da violência, Mário chegou a tremer e não conseguiu capturar nenhuma foto. Na década de 1990, ele deixou Porto Seguro e retornou a Itabuna. Magro e debilitado, revelou a amigos seu diagnóstico de Aids de forma direta, sem rodeios. Mesmo diante das dificuldades, mantinha seu olhar artístico aguçado, fruto de anos de experiência e convivência com profissionais de alta relevância internacional.
Desapego e sensibilidade cultural
O desapego de Mário às posses materiais era notório e causava estranhamento entre seus amigos. Durante um trabalho para a Prefeitura de Itajuípe, sua cidade natal, observou o rio Almada e enxergou nas águas calmas e no colorido das construções um reflexo das cidades mediterrâneas italianas. Imediatamente, visualizou o potencial daquela imagem para uma capa de jornal. Sua ferramenta favorita não era a câmera mais avançada, mas o celular surrado, que usava com maestria para criar imagens e retratos impressionantes.
Legado de um artista que viu o mundo com outros olhos
Mário Queiróz deixa uma marca que transcende a técnica fotográfica. Sua trajetória revela um homem em busca constante de liberdade, capaz de transformar a realidade ao seu redor em arte. Por meio da fotografia, ele compartilhou histórias, emoções e culturas, convidando o público a enxergar o cotidiano sob uma nova luz. Sua obra permanece como um convite à reflexão sobre o poder das imagens e a beleza que reside no olhar livre de um artista.
