Sete décadas de “Grande Sertão: Veredas” e sua presença marcante na literatura brasileira
Em 16 de julho de 1956, as livrarias receberam um dos romances mais emblemáticos da literatura nacional: “Grande Sertão: Veredas”, de João Guimarães Rosa. O autor mineiro criou, para contar a saga dos jagunços em busca de justiça e vingança pelo sertão, um dialeto próprio que mistura regionalismos e português arcaico. A narrativa atravessa um chão seco e mítico, onde se entrelaçam guerra, amores proibidos e reflexões sobre a condição humana. Em 2027, a obra terá duas novas traduções, para inglês e alemão, o que reforça a sua importância e a complexidade de transportar seu universo a outros idiomas.
O impacto da linguagem e a visão contemporânea sobre o clássico
Selecionar algumas frases de uma obra de mais de 500 páginas como esta é tarefa difícil. Expressões como “Viver é um descuido prosseguido” e “O sertão é dentro da gente” carregam a densidade da linguagem de Rosa, que parece criar uma nova língua. A saga desenrola-se na região dos sertões de Minas Gerais, Bahia e Goiás, onde o autor retrata as batalhas internas e externas dos jagunços com uma linguagem que desafia o leitor.
Eduardo Gianetti, economista, filósofo e integrante da Academia Brasileira de Letras (Letras (ABL)), destaca que “Grande Sertão” permanece atual e necessário, especialmente neste tempo marcado pela rapidez e superficialidade do mundo digital. Para ele, o livro funciona como um antídoto para essa “narcose digital” ao oferecer uma leitura profunda, com densidade metafísica e religiosa incomuns.
A ousadia dos temas e a personalidade singular de Guimarães Rosa
Gianetti chama atenção para a coragem de Guimarães Rosa ao construir um enredo que envolve o amor inalcançável entre Riobaldo e Diadorim, personagens centrais da trama. Ele interpreta Riobaldo como bissexual e Diadorim como transexual, um tema que, para o autor, é revolucionário e pouco esperado vindo de alguém tão reservado e tímido.
Leia também: Joel Rangel se aproxima da presidência da Câmara de Vila Velha com apoio de Arnaldinho
Fonte: jornalvilavelha.com.br
Leia também: Alice Ruiz Recebe Medalha de Mérito Cultural em Cerimônia Especial
Fonte: londrinagora.com.br
Guimarães Rosa, nascido em Cordisburgo, além de escritor, foi médico e diplomata. Sua personalidade mística atravessa suas obras e até sua própria vida, como mostra o fato de ter adiado sua posse na Academia Brasileira de Letras por medo da emoção, vindo a falecer pouco tempo depois da cerimônia, em 1956. O sobrenatural é quase um personagem em “Grande Sertão”, e relatos de sua convivência com o inusitado permeiam sua biografia.
Raízes sertanejas e a linguagem viva do interior
A conexão com o sertão não é apenas literária, mas também familiar para Rosa. Em Cordisburgo, Dôra Guimarães, prima do escritor e integrante do Grupo de Contadores de Estórias Miguilins, explica que muitos dos termos usados na obra são comuns no interior de Minas Gerais, apesar de parecerem neologismos para muitos leitores. A linguagem de Rosa reflete o jeito simples e poético das histórias contadas no cotidiano sertanejo.
Dôra relembra que o autor, ainda menino, ficava atrás do balcão da venda do pai, ouvindo as histórias que as pessoas contavam enquanto esperavam o trem. Esse ambiente alimentou a imaginação que daria origem a uma das maiores obras da literatura brasileira.
Desafios e conquistas nas traduções internacionais
Com o lançamento de duas traduções previstas para 2027, para inglês e alemão, “Grande Sertão: Veredas” ganha novas vozes e audiências. A tradutora australiana Alison Entrekin dedicou 12 anos para sua versão em inglês, intitulada “Vastlands: The Crossing”. Ela comenta que a obra exige uma tradução que também desafie as regras da língua, pois seu texto é repleto de invenções linguísticas e poesia.
Leia também: Em registro raro, onça-pintada é filmada no oeste da Bahia
Fonte: atividadenews.com.br
Alison, que já trabalhou com autores brasileiros como Chico Buarque, destaca que Rosa “chacoalha a linguagem” e que a tradução precisa refletir essa liberdade criativa. A tradução inglesa será publicada pelas editoras Simon & Schuster e Bloomsbury, abrangendo mercados do Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, Austrália e Nova Zelândia.
Legado e continuidade da obra no cenário cultural
“Grande Sertão: Veredas” permanece uma referência literária que dialoga com questões universais. Ela retrata um Brasil dos anos 1950, marcado pela ruralidade, desigualdade e estruturas patriarcais, mas também aborda temas profundos como a condição humana, a morte, a justiça e o amor impossível entre Riobaldo e Diadorim.
O aniversário de 70 anos da obra, em 16 de julho de 2026, é mais do que uma celebração: é um convite à reflexão sobre a cultura, a linguagem e a memória do Brasil. Guimarães Rosa continua inspirando leitores, pesquisadores e artistas, mostrando que no sertão, assim como na vida, “as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas”.
