Riobaldo e a Atualidade do Sertão em Tempos de Guerra
Desnorteado diante das perversidades que marcam o presente, o antropólogo Hermano Vianna buscou refúgio na literatura — e nada mais apropriado do que “Grande Sertão: Veredas”, romance lançado há 70 anos por João Guimarães Rosa. A narrativa de Riobaldo, jagunço e narrador dessa obra-prima, traz ensinamentos que vão muito além da autoajuda: são um guia prático para enfrentar os tempos turbulentos da governança global marcada por conflitos e incertezas.
Como a rapper chilena Ana Tijoux afirmou, todos somos “erroristas” — erramos o tempo todo, especialmente ao tentar prever o futuro. Riobaldo, por exemplo, acreditava no fim dos jagunços e do sertão, sentindo que os costumes mudaram e que o mundo buscava eliminar o sertão. Suas palavras carregam um tom de lamento e conformismo: “Ah, tempo de jagunço tinha mesmo de acabar, cidade acaba com o sertão”. Contudo, há também uma esperança na vitória da paz, ainda que acompanhada de um certo pessimismo.
O Sertão e os Jagunços no Mundo Atual
Hoje, o sertão não apenas resiste, mas parece ter retornado com força renovada. Não se trata da popularização do sertanejo nas cidades, mas de um fenômeno mais sombrio e abrangente. Vianna destaca que o sertão e seus jagunços ganharam nova dimensão no contexto global, com grupos que atuam em diversas frentes, desde tráfico de drogas até controle de dados pessoais e manipulação política. Essa realidade, descrita por autores como Paulo Arantes e Gabriel Feltran, atualiza o conceito de “sistema jagunço” para os dias atuais.
Em nível global, observamos o retorno da “lei do mais forte”, denunciada por líderes como Lula, Macron e Li Qiang, primeiro-ministro chinês, que alerta para os riscos de deixar os fracos à mercê dos poderosos, o que resultaria em mais violência e derramamento de sangue. Nesse cenário, a diplomacia e os tratados internacionais parecem frágeis diante da força bruta que predomina.
A Filosofia de Riobaldo como Guia para o Mundo Contemporâneo
Vianna releu “Grande Sertão: Veredas” em seu celular, buscando compreender o pensamento de Riobaldo como um tratado de sobrevivência para o “novo sertão”, que é o mundo em constante conflito. Riobaldo não oferece certezas, mas um método de pensar que valoriza o improvável, o contraditório e o provisório. Ele reconhece sua ignorância e o caráter especulativo de suas ideias, adotando uma postura que dialoga com o mundo complexo e incerto que vivemos.
Sua filosofia jagunça rejeita a busca por respostas definitivas e convida a abraçar a complexidade: “Tudo é e não é… tudo é misturado”. Riobaldo ensina que manter opiniões fixas é difícil e que é preciso ampliar a visão para compreender a totalidade do mundo em transformação. Esse pensamento é especialmente relevante em tempos marcados por fake news e polarizações extremas.
Medo, Coragem e a Jornada do Jagunço
Um dos temas centrais para Riobaldo é o medo, que ele define como o “mexer do sertão”. O medo é múltiplo, mutável e pode ser contagioso. Para sobreviver, é necessário dominar o medo e transformá-lo em coragem, o que para ele é a essência da vida. O jagunço, que aprendeu a “crer nos impossíveis”, tem o ofício de não ter medo, pois a vida exige valentia para enfrentar o desânimo e o caos do mundo.
A coragem dignifica até a morte, e Riobaldo enfatiza a importância de exercitá-la diariamente, sem fraquezas. Ele alerta que o medo pode crescer mesmo nos mais valentes, por isso é essencial estar atento para não ceder ao desânimo. A raiva, para Riobaldo, é uma arma contra o medo, desde que produza valentia e não se perca em ódio vazio.
O Sertão Misturado: Entre o Bem e o Mal
Riobaldo não se coloca como exemplo ou filósofo ideal. Para ele, “todo-o-mundo é louco” e a vida é cheia de contradições. Seu bando de jagunços tinha regras contra brutalidades desnecessárias, mas ele reconhece a dificuldade de distinguir o bem do mal em um mundo onde tudo é misturado.
Essa complexidade se reflete na sua visão de que querer o bem com demasiada força pode se tornar mal, e que a vida é um relato cheio de erros, mas também de alegria e rebuliço. Ele celebra a guerra como algo que diverte o demônio, mas acredita que Deus deseja ver as pessoas aprenderem a ser alegres e corajosas.
Um Manual Prático para Tempos de Guerra
Hermano Vianna utilizou as lições de Riobaldo como um guia prático para entender e enfrentar o mundo atual, marcado por conflitos e incertezas. Ele não buscava uma iluminação tranquila, mas um manual para a sobrevivência em uma governança global jagunça, onde não há escapatória e as soluções simples não existem.
O antropólogo conclui que é preciso encarar a realidade com coragem e alegria, aceitando que a vida é “terrível bonita, horrorosamente, esta vida é grande”. Essa visão, que mistura pessimismo e esperança, reflete a complexidade do mundo contemporâneo e a necessidade de adaptação constante para sobreviver.
