A Ópera Como Linguagem Transversal
Fortunato Ortombina, atual diretor-geral do Teatro Scala de Milão, compartilhou suas impressões sobre o papel da ópera na cultura mundial. Em uma conversa reveladora, ele começou a refletir sobre a relação entre a música clássica e as civilizações, mencionando sua curiosidade sobre o capitão da seleção de 1958, Hilderaldo Bellini, e seu possível parentesco com o compositor Vincenzo, de Catania. Apesar de ter descoberto que as raízes familiares de Bellini eram do Vêneto, isso só destacou ainda mais como a arte transcende fronteiras.
Ortombina, que também teve um mandato na La Fenice, em Veneza, entre 2017 e 2024, se tornou o primeiro diretor italiano do Scala após uma sequência de três diretores estrangeiros. A gestão deste icônico teatro envolve um delicado equilíbrio entre a política e a cultura de Milão, sendo administrado por um conselho que inclui representantes do governo, do Ministério da Cultura e da Câmara de Comércio. Para ele, a abertura da temporada é quase um evento de Estado, refletindo a importância do Scala na vida artística da cidade.
Desafios e Oportunidades na Programação
Com um mandato que se estende até 2030, Ortombina herdou do seu antecessor uma programação desafiadora, que inclui a imponente obra “O Anel do Nibelungo”, de Wagner, regida pela talentosa australiana Simone Young. A produção, marcada por interpretações exuberantes, foi recebida com entusiasmo, destacando vozes como a da aclamada Brünnhilde, interpretada por Camila Nylund. No entanto, Ortombina também já sinalizou as aberturas das próximas temporadas, incluindo “Otello” e “Um Baile de Máscaras”, ambas de Verdi, além de uma possível reinterpretação da obra de Carlos Gomes, trazendo à tona a rica conexão cultural entre o Brasil e a Itália.
O Diálogo do Teatro com a Cidade
Ao ser questionado sobre como estabelecer um diálogo vivo entre o teatro e a cidade de Milão, Ortombina enfatizou a importância da persistência. Ele expressou sua preocupação ao não ter notícias de contatos frequentes dentro da comunidade, ressaltando a necessidade de construir relacionamentos duradouros. Para ele, a vitalidade do Scala é intrinsecamente ligada à cidade, e vice-versa. A relação entre a música e o esporte é igualmente relevante, e ele fez questão de mencionar a presença de figuras como Fabio Capello, ex-técnico do Real Madrid, entre os assinantes da temporada sinfônica.
Relevância da Ópera na Atualidade
“A ópera é a linguagem mais transversal para todas as civilizações”, afirmou Ortombina. Ele argumentou que, independentemente da região do mundo, a música de compositores como Puccini é amplamente reconhecida. Ortombina fez uma reflexão interessante sobre a ubiquidade de certas melodias, como o famoso “Nessun dorma”, que, segundo ele, até mesmo as comunidades indígenas da Amazônia podem já ter escutado em alguma publicidade. Para ele, a ópera não é apenas uma forma de arte, mas uma fonte de narrativas que se entrelaçam com a cultura popular contemporânea, influenciando cinema e televisão de maneiras inesperadas.
Atualização e Experiência do Espectador
Frente às mudanças nos hábitos do público, especialmente após a pandemia, Ortombina acredita que a demanda por experiências ao vivo permanece forte. Ele observou que os teatros italianos estão atraindo mais espectadores do que antes, e que um evento como “O Crepúsculo dos Deuses” continua a encantar o público. A qualidade das performances é um diferencial que não deve ser subestimado, e o Scala se orgulha de oferecer um nível de excelência ímpar na apresentação de obras clássicas.
Encomendas e Novas Obras
Ortombina também comentou sobre o critério para a encomenda de novas obras. Ele mencionou o sucesso da adaptação de “O Nome da Rosa”, baseado na obra de Umberto Eco, que atraiu um público considerável. Segundo ele, a curiosidade do público jovem é um sinal positivo para o futuro da ópera. É essa busca por inovação que permite ao Scala manter-se relevante, sem comprometer sua essência. “Aqui não é um espaço para música pop, mas queremos que novas narrativas encontrem seu espaço”, disse.
Possibilidades de Conexão com o Brasil
Quando o tema foi a conexão do Brasil com a ópera, Ortombina destacou a importância de Carlos Gomes como um compositor essencial, mas também defendeu a busca por novas histórias. Ele mencionou Jorge Amado e a riqueza cultural que o Brasil representa, sugerindo que há narrativas fascinantes ainda a serem exploradas no contexto operístico. “Cada país tem suas peculiaridades, e o Brasil é uma terra cheia de histórias que podem se tornar obras-primas”, concluiu.
Reflexões sobre o Teatro e Política
Por fim, ao ser questionado sobre os riscos envolvidos na produção teatral em um contexto político polarizado, Ortombina reforçou a importância de ter clareza sobre o que se está arriscando. “A música é sempre soberana”, afirmou, lembrando que, apesar das mudanças e desafios, o teatro precisa continuar a ser um espaço de diálogo e reflexão, mantendo sua relevância ao longo do tempo.
