A Cheia do Açude das Pedras
Recentemente, Petrolina foi surpreendida por intensas chuvas que resultaram no transbordamento do Açude das Pedras, levando ao submergimento de figuras rupestres que datam de 6 mil anos. Em janeiro, o g1 Petrolina visitou o local, onde as gravuras estavam visíveis devido ao baixo nível da água. Agora, segundo o professor Genivaldo Nascimento, essas importantes representações artísticas ficam escondidas por pelo menos cinco anos.
“É incrível pensar que estivemos lá há pouco tempo e, a partir de agora, essas gravuras só poderão ser vistas daqui a alguns anos”, afirma o professor, detalhando o fenômeno que causou o transbordamento do açude. “O ciclo de enchimento do açude varia entre seis a oito anos. Normalmente, ele não transborda todos os anos, pois depende da água que vem de outras barragens. É necessário um período de chuvas intensas para que essas barragens alcancem seus limites e liberem a água para o Açude das Pedras”, completa.
A Importância das Gravuras Rupestres
Genivaldo Nascimento é um dos principais responsáveis por dar um significado científico a essas gravuras, que foram mapeadas em 2015 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em três sítios arqueológicos de Rajada. Antes desse trabalho, muitos moradores viam essas figuras apenas como “desenhos de índio”.
“Enviei fotos das gravuras para o professor Juvandi Santos da Universidade Estadual da Paraíba, que estuda a Pedra do Ingá, e ele confirmou que realmente se tratava de gravuras. A partir daí, entrei em contato com o Iphan e o Ministério Público, e desde 2015 temos promovido sua divulgação sob o prisma científico”, explica o professor. “Embora a comunidade soubesse da existência desses desenhos, não tínhamos noção da sua importância histórica e científica”, salienta Genivaldo.
Natureza como Protetora das Gravuras
O professor também lamenta a falta de preservação e a ação de vândalos, mas acredita que a natureza encontrou uma maneira de proteger as gravuras históricas com o aumento das águas. “É impressionante como os movimentos da natureza são surpreendentes. O ser humano não cuida, então a natureza, de sua própria forma, protege. Agora, essas gravuras estarão preservadas por pelo menos cinco anos”, acrescenta.
As rochas que compõem o Açude das Pedras são testemunhas de um passado distante, guardando inúmeras figuras esculpidas há milênios. Genivaldo explica que esses desenhos podem ter sido criados por povos que se deslocaram do que hoje é o estado do Piauí em direção ao rio São Francisco. “Antes mesmo de Rajada existir, outras comunidades habitaram esta região”, conta.
O Enigma das Gravuras Rupestres
Os visitantes que se aventuram até o local precisam exercitar a imaginação para atribuir significado aos desenhos. O fato de a ciência ainda não ter conseguido explicar completamente o contexto dessas figuras torna o sítio arqueológico ainda mais intrigante.
“As gravuras têm um contexto que se perdeu ao longo do tempo, e só conseguimos desenvolver hipóteses sobre seus significados. Elas devem ter algum valor, pois não seriam feitas se não tivessem importância, considerando o esforço físico que exigiram”, reflete Genivaldo. “Porém, esse significado permanece como um enigma, e apenas podemos conjecturar”, acrescenta.
Rochas com História
As gravuras rupestres foram esculpidas em rochas magmáticas, algumas das mais antigas do planeta. “Essas rochas têm uma textura que facilita a gravação dos desenhos. Elas são mais macias e mudam de temperatura, o que pode afetar a visualização das gravuras, dependendo da estação do ano”, explica o professor.
“Essas rochas têm aproximadamente 650 milhões de anos e ajudam a contar um pouco da história não apenas da região, mas da Terra como um todo. Elas são testemunhas das transformações que ocorreram em nosso planeta. Assim, o sítio arqueológico de Rajada, o Açude das Pedras, possui uma relevância geológica que se deve a essas rochas”, conclui Genivaldo.
