O Valor da Cultura nas Empresas
A cultura organizacional, outrora vista como um conceito abstrato, ganhou destaque como um componente essencial nas estratégias financeiras das empresas. Em um cenário onde a competitividade e os custos são elevados, os empresários passaram a perceber que muitas das perdas financeiras não têm origem no mercado, mas em como as empresas operam internamente. Problemas como decisões desalinhadas, retrabalho, conflitos entre equipes e a dependência excessiva de líderes específicos estão entre os principais fatores que geram ineficiências.
Estudos realizados globalmente corroboram essa visão. Levantamentos da CNP (Cultura na Prática) revelam que equipes com alto engajamento podem resultar em até 21% a mais em lucratividade e uma significativa diminuição na taxa de rotatividade de colaboradores. Além disso, pesquisas da Deloitte demonstram que empresas cuja cultura está alinhada à estratégia apresentam um desempenho financeiro até 30% superior em comparação a aquelas com baixa coesão interna. Dessa forma, o comportamento organizacional emergiu como uma variável econômica relevante.
Desafios no Brasil
No Brasil, onde a rotatividade ainda representa um desafio no custo operacional das empresas, a falta de clareza em relação à cultura organizacional agrava a situação. A substituição de um colaborador pode custar de 50% a até duas vezes o salário anual do profissional, levando em conta despesas com recrutamento, treinamento e perda de produtividade. Ambientes onde os critérios não são claros costumam provocar decisões inconsistentes em situações semelhantes, resultando em insegurança nas equipes e uma experiência do cliente comprometida.
Marcela Zaidem, especialista em liderança e desenvolvimento organizacional com experiência em grandes empresas como The Walt Disney Company e Cosan, afirma que o erro mais comum é tratar a cultura como mera formalidade. Para ela, “Cultura não é clima nem campanha interna; é o sistema que orienta como a empresa decide, cobra e entrega quando ninguém está observando”. Zaidem ressalta que, na ausência de um sistema explícito, cada gestor acaba criando suas próprias regras, o que prejudica a eficiência organizacional.
Exemplos Práticos de Sucesso
Um caso ilustrativo é o do Grupo Delta, localizado em Rio Verde (GO), que enfrentou sérias variações na experiência do cliente durante seu crescimento. O CEO Diogo Paiva relatou que “a experiência variava bastante, dependia de quem estava atendendo”. Após implementar um programa estruturado de cultura organizacional sob a orientação de Marcela, a empresa passou a agir com critérios de decisão e comportamento mais claros, minimizando o improviso e padronizando as ações das equipes. Como resultado, Diogo observou um aumento de 40% no faturamento em apenas três meses.
Para Zaidem, mudanças como essas não acontecem por meio de ações isoladas, mas sim por meio de uma consistência operacional: “Quando a cultura se torna um critério de decisão, o ruído diminui e a previsibilidade aumenta, permitindo que a empresa cresça sem comprometer a qualidade”. Ela enfatiza que uma cultura forte não elimina conflitos, mas sim estabelece clareza sobre o que é aceitável, inegociável e como a liderança deve agir frente a desafios.
A Importância da Autonomia
Outro aspecto positivo é a redução da dependência do chamado “herói”, que geralmente é o fundador ou um gestor centralizador. Zaidem observa que “se tudo precisa passar por uma única pessoa para funcionar, a empresa não possui uma cultura sólida, mas sim um controle pessoal”. Uma cultura bem estruturada promove padrões que permitem autonomia com responsabilidade, acelerando a capacidade de resposta, melhorando a coordenação entre áreas e sustentando o crescimento sem sobrecarregar a liderança.
Com um contexto econômico que exige produtividade e previsibilidade, especialistas concordam que a cultura organizacional deve ser tratada como uma infraestrutura de gestão, semelhantemente às finanças e operações. O desafio não se limita a definir valores, mas sim a transformá-los em critérios práticos que orientem a contratação, promoção, cobrança e decisões gerenciais. Para os empresários, a mensagem é clara: uma cultura forte não é apenas um diferencial competitivo, mas um ativo que impacta diretamente a receita, os custos e a competitividade a longo prazo.
