Uma jornada de fé e desafios no Nordeste
Para quem assistiu à primeira cena do filme “O Agente Secreto” e não conhece a realidade do Nordeste, pode parecer que se trata de um exagero do diretor Kleber Mendonça. Contudo, aqueles que já vivenciaram o interior nordestino não estranham situações como a descrita, onde um corpo é deixado à mercê do tempo, coberto apenas por um pedaço de papelão. Essa cena, que retrata a indiferença e a falta de cuidados, diz muito sobre a realidade dessa região. O frentista do posto de gasolina que tenta afastar os cães que se aproximam do cadáver é um símbolo de uma luta solitária, e a situação é apenas uma das muitas que justificam o reconhecimento da obra no cenário internacional.
No dia 3 de fevereiro de 2026, durante minha viagem de Arapiraca a Serra Talhada, visualizei um panorama que revelava a devoção dos nordestinos. Entre São José da Tapera e Olho D’Água do Casado, próximo ao distrito do Caboclo, uma carcaça de ônibus e uma quantidade significativa de viaturas policiais se destacavam, sinalizando um trágico acidente envolvendo romeiros que estavam a caminho de Juazeiro do Norte. Na véspera, ao conversar com um amigo de Coité do Nóia, Alagoas, fiquei sabendo que 28 ônibus haviam se deslocado para participar da procissão de Nossa Senhora da Candeia. A devoção por Padre Cícero, figura emblemática do Nordeste, torna essa peregrinação um evento de grande significado para a população local.
A força da fé nordestina
É difícil não se impressionar com a determinação de quem mora em Coité do Nóia e se desloca até Juazeiro do Norte, uma viagem de cerca de 562 quilômetros que pode levar mais de nove horas. O ato de ir até o santuário para prestar homenagem a Padre Cícero se torna, para muitos, uma experiência espiritual profunda. Centenas de famílias abandonam suas rotinas cotidianas, utilizando suas escassas economias para preparar lancheiras com água, farofa e até frango assado, para a longa jornada em busca de um refúgio espiritual. Essa tradição de peregrinação remete a relatos antigos, onde romeiros, incluindo crianças, enfrentavam perigos ao longo do caminho.
A recente tragédia que atingiu a comunidade de Coité do Nóia durante essa romaria reitera a resiliência do povo nordestino. Os relatos de um acidente que deixou sessenta pessoas feridas e causou várias mortes trazem à tona a fragilidade da vida nessa região. O desespero e a dor das famílias afetadas ressoam em toda a comunidade, lembrando que a fé, embora poderosa, não é imune a tragédias. Uma mulher, que não viajou e perdeu a família inteira, resumiu o sentimento coletivo: “Deus e Padre Cícero vão confortar”.
O clima e a agricultura no sertão
Enquanto isso, em Serra Talhada, as chuvas que foram aguardadas desde novembro finalmente chegaram, trazendo alívio para a seca que aflige a região. Após um período de chuviscos fracos, a chuva persistente de hoje marca a esperança de um ‘inverno’ verdadeiro, conhecido como a quadra chuvosa do sertão. Essa precipitação, embora insuficiente para um plantio imediato, representa um passo importante para os agricultores locais. Espera-se que a continuação das chuvas nas próximas semanas possa garantir uma boa colheita de milho e assegurar a produção de forragem, crucial para a pecuária local.
Nos últimos anos, a escassez de água e a necessidade de adaptação à seca forçaram muitos produtores a encontrarem soluções inovadoras, como a produção de silo e feno. A palma forrageira, por exemplo, tornou-se uma opção viável de negócio, demonstrando que a resiliência e a capacidade de adaptação são características fundamentais do povo nordestino.
As histórias de fé e luta em meio às dificuldades refletem uma realidade complexa, onde a espiritualidade e a comunidade se entrelaçam em um cenário de esperança e desafios constantes. A capacidade da população de se unir em momentos difíceis é um testemunho do poder da fé e da solidariedade que permeia o Nordeste.
