Reflexões sobre a Geração 40+
A tranquilidade dos barcos na Bahia de Todos os Santos e o ritmo relaxado da Praia da Paciência contrastam com a agitação cotidiana de eventos e encontros que marcam a vida da geração 40+. Essa tribo, composta por pessoas que nasceram entre 1975 e 1985, parece estar exausta, mesmo rodeada de oportunidades para se divertir. O sociólogo Michel Maffesoli, desde a queda do Muro de Berlim, argumenta que as instituições sociais tradicionais, como família e igreja, não conseguem mais abarcar a complexidade dos nossos laços de pertencimento. O que ele propõe? A divisão da vida social em grupos caracterizados por estilos de vida, conhecidos como tribos.
Os indivíduos dessa faixa etária, filhos de classes médias urbanas, formam um panteão variado de afinidades. No entanto, após uma temporada na Bahia, percebo que o principal elo que une esses 40+ é a rejeição à vida adulta. A vontade de se manter eternamente jovem ressoa forte entre eles.
Essa busca pela juventude representa um intervalo entre a infância e a maturidade, onde a sociedade permite uma experimentação da vida em um modo ‘beta’. É análogo a patinar usando todos os equipamentos de segurança, acreditando que as paredes e o teto oferecem proteção adicional contra a queda. Porém, chega um momento em que a sociedade exige que enfrentemos os rituais de passagem que nos conduzem à vida adulta.
Os rituais de passagem são fundamentais na vida social, pois comunicam quem somos e nos ensinam a nos comportar adequadamente em diferentes momentos da vida. Sem esses rituais, tanto nós quanto aqueles ao nosso redor acabamos nos sentindo desorientados, sem saber como agir ou pensar.
A recusa em aceitar os padrões tradicionais, como o casamento, é evidente na adesão a aplicativos de relacionamentos. Muitos optam por uma vida de freelancer em vez de relações de trabalho estáveis, enquanto a paternidade é frequentemente substituída pela adoção de animais de estimação. Além disso, há um crescente desprezo por bens duráveis como imóveis e veículos. Essas escolhas refletem uma busca quase desesperada por congelar a juventude.
Como consequência, essa recusa tem gerado confusão. Os 40+ se sentem confortáveis em usar meias com tênis de skatista, dominam as pistas de dança sem considerar a presença de pessoas mais jovens e se preparam para as festividades do Carnaval como se tivessem 15 anos. Contudo, os sinais do tempo são inegáveis, e o corpo frequentemente não responde mais como antes.
Recentemente, sob o sol escaldante do verão, minha amiga e eu decidimos seguir a rotina de nossa tribo. Começamos o dia no Bar da Mônica, um boteco famoso na Gamboa. O dia foi repleto de caipirinhas, peixe frito e mergulhos no mar. No entanto, a volta para casa exigiu enfrentar uma escadaria de mais de 200 degraus. Precisamos parar três vezes para recuperar o fôlego, sempre com a desculpa de apreciar a beleza do pôr do sol na Bahia. Apesar da aparência jovem que muitos 40+ tentam manter, a vontade muitas vezes supera o próprio fôlego.
