A Mostra de Arte e Devoção
Nova Iguaçu (RJ) – A arte, a história e a fé se entrelaçam de maneira cativante na exposição “Arte & Devoção – A escultura religiosa no Brasil colonial”, que está de portas abertas até o dia 31 de janeiro na Casa de Cultura Ney Alberto, localizada em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Com entrada gratuita, a mostra apresenta 350 peças sacras, sendo seis delas atribuídas ao famoso artista Antônio Francisco Lisboa, conhecido como Aleijadinho (1738-1814). Surpreende que uma exposição com um acervo tão vasto ocorra fora dos tradicionais centros culturais do país, um mérito a ser reconhecido da prefeitura local, que organizou e montou o evento, além de produzir um catálogo completo com fotos e descrições das obras.
“Os visitantes terão a oportunidade de conhecer peças inéditas, pertencentes a colecionadores de várias partes do Brasil. Todos os objetos expostos têm procedência confirmada. As influências europeias na arte mestiça são claramente visíveis em algumas delas. Sou um grande admirador do Barroco mineiro e a genialidade de Aleijadinho é indiscutível”, destaca Marcus Monteiro, secretário Municipal de Cultura de Nova Iguaçu e também colecionador de arte, que possui vasta experiência na área, tendo sido presidente do Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro (Inepac).
Um Riqueza Cultural e Histórica
Orgulhoso do sucesso da exposição, que já atraiu mais de mil visitantes, Monteiro, que é um dos curadores, explica que a mostra oferece a chance de um passeio pela arte colonial criada entre os séculos 16 e 19 por artistas de diferentes origens, incluindo brasileiros, portugueses e até indianos da antiga Goa. “Desde a exposição ‘Brasil 500 anos’, em 2000, não tivemos um acervo tão extenso. Assim, decidimos que era hora de trazer algo nesse nível novamente”, relata o secretário, que divide a curadoria com o restaurador Erick Marques Ferreira e o museólogo e doutor em artes visuais Rafael Azevedo.
A seleção das peças foi meticulosa e levou mais de quatro meses para ser concluída, visando uma representação fiel da arte sacra colonial. “Todo o acervo exposto pertence a colecionadores sérios, incluindo peças da Diocese de Nova Iguaçu”, explica Azevedo, que acredita que a exposição oferece um mosaico rico sobre o tema, começando desde a chegada dos colonizadores ao Brasil.
A Magia do Barroco Mineiro
Distribuída em cinco ambientes, a mostra destaca tanto obras populares quanto eruditas e apresenta grandes nomes do Barroco mineiro, como o próprio Aleijadinho, natural de Ouro Preto, e Valentim da Fonseca e Silva, conhecido como Mestre Valentim, que nasceu no Serro. Um dos destaques é a escultura de Nossa Senhora do Carmo, do século 18, atribuída a Aleijadinho e que hoje pertence a uma coleção particular em Brasília. A peça, com 87 centímetros de altura, esteve na coleção do casal Marcos e Ana Amélia Carneiro de Mendonça, e uma fotografia de sua filha, a crítica de teatro Bárbara Heliodora, está presente no catálogo da exposição.
Além da escultura de Nossa Senhora do Carmo, a exposição inclui várias outras obras atribuídas a Aleijadinho, como imagens de São Sebastião, São Francisco da Penitência e Santa Teresa de Ávila. “Essa mostra nos leva a refletir sobre a influência europeia na produção artística mestiça que resultou em tantas obras-primas”, afirma Monteiro, que ressalta a importância do Barroco mineiro na formação cultural do Brasil.
Reflexões e Conexões com a Cultura Local
Entre os visitantes que conhecem as peças, o médico Pedro Reis Pereira, de Macaé, expressa sua admiração: “Vim a Nova Iguaçu especialmente para ver a exposição. É impressionante e até mais requintada do que a mostra dos 500 anos do Brasil”. Wagner Freitas de Lima, fisioterapeuta carioca, também elogia a iniciativa: “Realizar uma exposição dessa magnitude em Nova Iguaçu valoriza tanto a cidade quanto a Baixada Fluminense.”
Monteiro, ao ouvir as opiniões dos visitantes, revela que um dos objetivos da mostra é desmistificar o estigma de violência que a cidade enfrenta, com uma população de 1 milhão de habitantes. Ele lembra a rica história local, incluindo o importante Caminho do Comércio, uma rota que liga Minas ao Rio de Janeiro e que recebeu o status de “relevante interesse cultural” em 2025.
Uma Experiência Transformadora
Além das esculturas atribuídas a Aleijadinho, a exposição possui outras obras de artistas renomados, como o Mestre Valentim. Cada peça traz à tona não apenas a estética, mas também a força simbólica e a herança cultural da população negra na Baixada, conforme observa Augusto Vargas, subsecretário de Integração Cultural do estado. “Arte & Devoção” se conecta com as tradições religiosas e culturais que caracterizam a região, envolvendo manifestações como quadrilhas juninas, folias de reis e expressões devocionais.
A exposição, que pode ser visitada até o fim do mês, promete emocionar a todos que passarem por seus corredores, seja pela história que conta, pelas mãos que moldaram suas peças ou pela beleza que celebra a fé e a arte. Visite a Casa de Cultura Ney Alberto e mergulhe nesse universo fascinante da arte sacra brasileira.
