Desafios do Turismo de Massa nas Praias Brasileiras
As recentes ocorrências de desordem e superlotação nas principais praias brasileiras acenderam um alerta sobre os riscos do turismo de massa predatório. Um exemplo notório é o caso de Porto de Galinhas, em Pernambuco, onde a prefeitura decidiu proibir a exigência de consumação mínima nas areias. Esta medida foi inspirada por incidentes que culminaram no indiciamento de 14 pessoas pela Polícia Civil, após uma briga generalizada, refletindo a tensão crescente em um destino que atraiu 1,2 milhão de visitantes em 2025, um aumento significativo em relação aos 937 mil de 2019.
Niterói (RJ), por sua vez, estabeleceu um teto de R$ 22,85 para aluguel de barracas, enquanto cidades como Florianópolis (SC), Arraial do Cabo (RJ) e Ubatuba (SP) intensificaram a fiscalização de suas praias. O objetivo dessas ações é melhorar a experiência dos visitantes e, ao mesmo tempo, proteger os espaços naturais que são cada vez mais ameaçados pela pressão do turismo.
Controle de Visitantes e Medidas de Proteção
Além das regulamentações comerciais, diversas áreas de proteção ambiental, como em Jericoacoara (CE) e Ilha Grande (RJ), implementaram taxas de visitação, gerando debates e ações judiciais. Nos Lençóis Maranhenses (MA), recém reconhecidos como Patrimônio Natural Mundial pela Unesco, os gestores estão avaliando a implementação de um limite diário de visitantes para garantir a preservação do local.
No cenário global, modelos de restrição já mostram resultados positivos. Locais icônicos como Monte Fuji, no Japão, e Machu Picchu, no Peru, têm horários reduzidos e limitam o número de visitantes diários, enquanto Veneza, na Itália, e Mallorca, na Espanha, adotaram taxas de entrada como forma de controle.
Crescimento do Turismo: Desafios e Oportunidades
Em 2023, o Brasil registrou cerca de 9,3 milhões de turistas internacionais, um recorde que representa um aumento de 37% em relação a anos anteriores. Os argentinos se destacaram como os principais visitantes, seguidos por chilenos e norte-americanos. No entanto, esse crescimento traz desafios, como a necessidade de uma “política integrada” entre governo, setor privado e sociedade civil, como pontuou Ana Carla Lopes, secretária-executiva do Ministério do Turismo. Ela enfatizou que a realidade de cada destino deve ser considerada na formulação de políticas, com questões como taxas de visitação e descontos para moradores locais sendo discutidas como parte de um planejamento mais abrangente.
A falta de infraestrutura e os problemas de saneamento básico em localidades turísticas são preocupações constantes. Apesar da riqueza proporcionada pelo turismo, a cidade de Ipojuca, por exemplo, enfrenta a desordem urbana e o crescimento descontrolado, refletindo um cenário que se repete em diversas praias brasileiras. O urbanista Zeca Brandão observou que Porto de Galinhas, uma vila de pescadores transformada em destino turístico nos anos 70, exemplifica um crescimento sem planejamento que prejudica a qualidade do ambiente local.
Perspectivas Futuras e Turismo Sustentável
Santo Amaro, nos Lençóis Maranhenses, é outro exemplo de como o turismo pode crescer rapidamente. Desde 2013, quando Matteo Soussinr abriu uma pousada voltada para o turismo sustentável, o número de visitantes saltou de 61 mil em 2021 para 297 mil em 2024. Essa realidade demanda um olhar cauteloso sobre a capacidade de suporte das áreas turísticas. As autoridades locais e o ICMBio estão, atualmente, estudando a limitação da visitação ao Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, com preocupações sobre o impacto ambiental e a preservação do lençol freático.
Visando minimizar os efeitos da massificação, o ICMbio e o Ministério do Turismo ressaltam a importância de iniciativas que promovam um turismo responsável. O Mapa do Turismo Responsável e ações como o Programa Lixo Zero são exemplos das estratégias adotadas para equilibrar o desenvolvimento econômico da região com a preservação do meio ambiente. Contudo, especialistas como Mariana Aldrigui, da USP, alertam que as políticas públicas ainda são incipientes e precisam ser mais focadas no ordenamento urbano e no desenvolvimento sustentável das cidades.
