O Impacto das Eleições na Saúde Pública
O setor de saúde no Brasil enfrenta um período crítico em 2026, marcado por desafios estruturais que se acumulam ao longo dos anos. Com a chegada de um ano eleitoral, as pressões políticas aumentam, como apontado por especialistas da área. A polarização tende a dominar o debate público, enquanto a agenda de saúde se vê frequentemente desviada para promessas de curto prazo e disputas ideológicas. De acordo com uma pesquisa recente do Datafolha, 20% da população considera a saúde pública como o maior problema do país, o que ressalta a necessidade urgente de abordagens mais realistas e efetivas.
Os especialistas acreditam que, apesar do cenário desafiador, 2026 pode ser um ano de transição. A expectativa é que a retórica excessiva dê lugar a um reconhecimento mais honesto sobre os limites do Sistema Único de Saúde (SUS). Embora a situação não apresente soluções imediatas, a análise de Gonzalo Vecina Neto, médico e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, indica uma estabilidade no financiamento da saúde. “Não vai piorar, mas também não vai melhorar. Vai ser a mesma coisa”, afirma, referindo-se às regras que garantem 15% da receita corrente líquida da União para o setor.
Recursos Limitados e a Organização do SUS
Em um contexto de escassez de recursos, a discussão sobre a melhor organização do sistema se torna ainda mais pertinente. O orçamento aprovado pelo Congresso Nacional para 2026 é de R$ 6,5 trilhões, com R$ 254,9 bilhões destinados à saúde, um incremento de R$ 7,4 bilhões em relação ao mínimo constitucional. Contudo, o principal desafio continua sendo a regulação do acesso a consultas e exames. A implementação de programas, como o Mais Especialistas, embora útil, é considerada pelo especialista como uma solução temporária. “É apagar incêndio”, afirma Vecina, ao enfatizar a necessidade de uma abordagem mais estruturada, com filas únicas e organizadas no SUS.
A crítica sobre o crescimento das emendas parlamentares no orçamento da saúde é outro ponto levantado por José Gomes Temporão, ex-ministro da Saúde. Ele argumenta que esse fenômeno “sequestra” recursos importantes, dificultando o planejamento e a definição de prioridades nacionais. Para ele, a situação atual, com quase 32% das emendas focadas na saúde, é preocupante e pode prejudicar a governabilidade do setor.
A Saúde Como Tema Central nas Campanhas Eleitorais
Ligia Bahia, professora da UFRJ, ressalta que a saúde continuará a ser um tema central nas campanhas eleitorais, mas com uma diferença em relação ao passado. “Antes, as promessas eram irrealizáveis”, explica. Com um cenário mais realista, as propostas devem refletir os verdadeiros desafios do sistema. Embora isso não signifique que a saúde no Brasil esteja salva, ela acredita que 2026 pode ser um ano em que a discussão se torne mais madura e baseada em dados concretos.
Ligia sugere que o país deve reconhecer suas limitações para avançar. “Temos um sistema de saúde que deixa as pessoas morrerem. Se aceitarmos isso, ao menos poderemos nos comprometer com um sistema que possibilite a vida”, defende. A priorização da oncologia surge como uma 가능한 mudança positiva, especialmente considerando o envelhecimento da população e o aumento dos casos relacionados ao câncer.
Preparação para Emergências Sanitárias e Desinformação
Outro ponto importante levantado por especialistas é a preparação do Brasil para futuras emergências sanitárias. Temporão sugere a criação de um organismo nacional robusto de inteligência epidemiológica, que possa coordenar ações de vigilância com eficiência e estabilidade. Além disso, ele aponta para a necessidade de reforçar a relação entre saúde e mudanças climáticas, um fator que afeta diretamente a saúde pública.
Thais Junqueira, superintendente da Umane, também destaca a desinformação em saúde como um desafio crescente em períodos eleitorais. A vacinação, por exemplo, se torna um tema sensível, visto que mesmo com avanços, a resistência à vacinação persiste entre a população. “A desinformação aumenta em anos eleitorais”, alerta. Ela ressalta que é crucial consolidar sistemas de alerta para novas ameaças sanitárias e integrar a agenda de saúde com questões climáticas no cotidiano do SUS.
Desafios e Perspectivas para 2026
Apesar da diversidade de questões, como câncer, filas de espera, financiamento e segurança sanitária, os especialistas concordam: 2026 não será um ano de grandes reformas, mas tampouco pode ser considerado um período perdido. “Ano de eleição não é um momento para esperar grandes mudanças”, conclui Thais. O desafio será estabelecer prioridades realistas e objetivos de curto prazo, evitando a tentação de soluções rápidas ou discursos polarizadores. No fundo, como enfatiza Temporão, os problemas do SUS são tão técnicos quanto políticos, refletindo a inequidade e a percepção da população sobre o sistema.
