O Impacto da Dieta Cetogênica na Saúde Mental
Maya Schumer, uma neurocientista de 32 anos, residente em Belmont, Massachusetts, enfrentou desafios com o transtorno bipolar por mais de dez anos. Apesar de ter tentado diversos tratamentos, que incluíam terapias e medicamentos, seus episódios de pânico, mania, depressão e confusão mental persistiam, tornando sua situação cada vez mais crítica.
No início de 2024, a ideação suicida passou a ser uma constante em sua vida. Foi então que, a sugestão de seu psiquiatra sobre a adoção da dieta cetogênica — um plano alimentar que prioriza a ingestão de gorduras e reduz drasticamente os carboidratos — se apresentou como uma nova alternativa. “Não tinha nada a perder”, disse Maya, decidindo experimentar essa abordagem.
Embora especialistas alertem que não há evidências suficientes para comprovar a eficácia da dieta cetogênica como tratamento para transtornos mentais, muitos pacientes que não obtiveram sucesso com os métodos tradicionais estão dispostos a buscar novas opções. Assim, médicos e pacientes começam a explorar a dieta cetogênica em busca de alívio para problemas de saúde mental.
Entendendo a Dieta Cetogênica
Desde a década de 1920, a dieta cetogênica tem sido utilizada para tratar a epilepsia, embora ela tenha ganhado popularidade recente como uma estratégia de emagrecimento. Essa dieta varia em suas formas, mas todas as versões enfatizam o consumo de alimentos ricos em gordura e evitam carboidratos, recomendando itens como ovos, carnes, peixes, manteiga, nozes e vegetais não amiláceos, como folhas verdes e couve-flor. Por outro lado, alimentos como grãos, leguminosas, doces, batatas e a maioria das frutas são estritamente proibidos.
O principal objetivo da dieta é induzir o estado de cetose, que ocorre quando o corpo muda sua fonte de energia de carboidratos para gordura. Essa transição, segundo Shebani Sethi, diretora do programa de psiquiatria metabólica da Stanford Medicine, ajuda a estabilizar os níveis de açúcar no sangue e insulina, podendo ainda auxiliar na redução do apetite e no controle do diabetes tipo 2.
Pesquisas Promissoras sobre Saúde Mental
Em 2017, o professor Christopher Palmer, da Faculdade de Medicina de Harvard, comentou sobre a relação entre a dieta cetogênica e a saúde mental, relatando um estudo de caso com dois pacientes que apresentavam transtorno esquizoafetivo. Ambos notaram melhorias significativas em seus sintomas, como diminuição da depressão e alucinações, após algumas semanas na dieta. No entanto, ao retomarem uma alimentação comum, os sintomas retornaram rapidamente.
“Minha primeira reação foi de ceticismo, mas ao investigar mais a fundo, percebi que existiam poucos estudos sobre este tema”, afirmou Palmer. Um estudo de 1965, por exemplo, revelou que dez mulheres diagnosticadas com esquizofrenia mostraram melhorias após duas semanas de cetose. Mais recentemente, em 2024, uma pesquisa avaliou 23 adultos com esquizofrenia ou transtorno bipolar que seguiram a dieta cetogênica por quatro meses, apresentando uma melhora média de 31% em seus sintomas.
Um estudo realizado em 2025 com 16 alunos universitários diagnosticados com depressão grave também revelou que, após 10 a 12 semanas na dieta, os sintomas melhoraram em cerca de 70%. Contudo, a pesquisadora responsável, Gia Merlo, ressalta que muitas outras investigações são necessárias para compreender plenamente os efeitos da dieta cetogênica na saúde mental.
Cuidados Necessários
Apesar do crescente interesse, especialistas permanecem cautelosos sobre a adoção da dieta cetogênica. Eles alertam sobre os riscos envolvidos, especialmente se pacientes interromperem a medicação sem orientação médica. A professora Gia Merlo aponta que alguns indivíduos podem sentir-se tão bem com a dieta que acreditam poder abandonar suas medicações, levando a consequências adversas.
Drew Ramsey, psiquiatra em Jackson, Wyoming, relembra um paciente que abandonou sua medicação em favor da dieta cetogênica, resultando em hospitalização devido à mania. “O que funciona para algumas pessoas, pode não funcionar para todas”, enfatiza.
Além disso, a dieta cetogênica frequentemente apresenta altos níveis de gorduras saturadas, decorrentes do consumo de carnes vermelhas, e é pobre em fibras, o que pode aumentar o risco de doenças como problemas cardiovasculares e alguns tipos de câncer, conforme alerta Gia. Outro desafio reside na dificuldade de seguir a dieta a longo prazo, pois exige preparo constante de refeições e monitoramento rigoroso dos nutrientes, o que pode desestimular até mesmo aqueles com apoio profissional.
Considerações Finais
Se a decisão de adotar a dieta cetogênica for feita, é crucial que seja sob supervisão médica. Palmer salienta a importância de realizar essa transição com acompanhamento, a fim de monitorar a saúde e ajustar outras medicações. “Não faça isso sozinho”, conclui.
Por outro lado, há quem, como Maya Schumer, demonstram resultados positivos e mantêm a dieta por longos períodos. Depois de 18 meses seguindo o plano alimentar, ela afirma: “Se essa dieta puder me ajudar a viver, coisas como pão e macarrão não parecem tão importantes assim.”
