A Cultura da Produtividade e Seus Efeitos Negativos
Nos últimos tempos, tenho expressado minha insatisfação com certas frases que, embora pareçam meras queixas, na verdade são elogios disfarçados à cultura da produtividade excessiva. É aquele discurso comum entre aqueles que afirmam estar sempre ocupados, como se isso fosse um sinal de valor, mas que na realidade revela um orgulho disfarçado de uma rotina desgastante.
Um exemplo marcante é a famosa expressão “trabalhe enquanto eles dormem”. Essa frase encapsula perfeitamente a essência da produtividade tóxica, pois sugere que estar constantemente ativo e focado em performance é sinônimo de sucesso e melhora pessoal. E o que é pior: implica que devemos sacrificar nosso sono em nome de um desempenho melhor.
Essa mentalidade está nos levando a um estado de exaustão crônica, fazendo do Brasil um dos países líderes em afastamentos do trabalho devido a problemas de saúde mental. Vale a pena refletir: as pessoas que repetem esses mantras de produtividade não costumam ter privilégios que sustentam essa visão? Será que quem prega essa filosofia realmente cumpre com ela, trabalhando enquanto todos dormem?
Essa expressão, em particular, sugere que ao usarmos um tempo que deveria ser dedicado ao descanso coletivo para trabalhar, estamos criando um diferencial competitivo. No entanto, muitos levam essa “fórmula de sucesso” a sério, chegando ao ponto de privar-se do sono, recorrendo a medicamentos para contornar a fadiga e se perguntando: aonde mesmo estamos indo?
As Verdadeiras Consequências da Produtividade Tóxica
Esse tipo de expressão funciona como uma cola que mantém unida a cultura da produtividade insustentável. Elas perpetuam um modo de vida que, ao invés de promover bem-estar, alimenta a sociedade da exaustão e do desempenho, enraizando-se no cotidiano com mensagens que são facilmente assimiladas. Contudo, são promessas vazias; o mundo 24/7 prospera quando nos privamos do sono para trabalhar, consumir ou nos entreter nas redes sociais. E essa dinâmica não se dá porque há uma preocupação genuína com nosso sucesso, mas sim porque estamos mantendo o sistema em movimento. E, em muitos casos, alguém está se beneficiando da nossa fadiga.
Ao absorver e reproduzir essas ideias, também contribuímos para essa narrativa. Quando nos gabamos de ter trabalhado durante um feriado, de ter ignorado a pausa para o almoço enquanto os colegas se divertem ou de ter levado trabalho nas férias, acabamos distorcendo a percepção do que significa descansar. Aqueles que realmente aproveitam suas pausas, férias e horas de lazer acabam sendo rotulados como preguiçosos ou negligentes, o que gera uma sensação de culpa em quem apenas busca um momento de descanso.
Questionando a Necessidade de Estar Sempre Produzindo
Essa situação é, no mínimo, alarmante. Autores renomados já abordaram esse assunto em suas obras. O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em seu livro “Sociedade do Cansaço”, e a poetisa americana Tricia Hersey, em seu manifesto “Descansar é Resistir”, discutem a necessidade de desconstruir essa lógica perversa. Jonathan Crary, em suas pesquisas sobre a vida 24/7, também traz uma crítica contundente a essa realidade.
Quando eu digo “durma enquanto eles dormem”, minha intenção é provocar uma reflexão sobre essas ideias e o papel que desempenhamos ao disseminá-las. Reconheço que, para aqueles que realmente precisam trabalhar durante a madrugada, a escolha pelo descanso é complexa. Essa expressão que deveria ser um convite ao descanso, na verdade, transforma a exaustão em um motivo de orgulho, promovendo a ideia de uma “força guerreira” que nem sempre é saudável.
Essa situação de desvalorização do sono não se limita apenas às horas de descanso, mas se estende a todos os aspectos da vida, como a arte, as festas, os rituais e as relações sociais. Estamos presenciando uma compressão do tempo que poderíamos dedicar a atividades que nos tornam humanos, em favor de um modelo que só aceita a dedicação a atividades consideradas úteis ou produtivas.
