Reflexões sobre a Responsabilidade ao Viajar
Viajar é uma atividade que, à primeira vista, parece simples. No entanto, por trás dessa aparente facilidade, existem dilemas morais que se tornam cada vez mais evidentes. Questões como as emissões de carbono geradas pelos voos e os impactos negativos do turismo em massa ganham destaque na mente do viajante contemporâneo. A pergunta que se impõe é: devemos ignorar esses efeitos? Ou seria melhor abdicar de viajar? Wolfgang Strasdas, diretor científico do Centro de Turismo Sustentável de Berlim, acredita que a resposta não é tão drástica. Segundo ele, não é necessário carregar o peso da culpa ao viajar.
Para muitos lugares ao redor do mundo, o turismo representa uma base econômica sólida e um motor de desenvolvimento. Contudo, Strasdas ressalta a importância da reflexão cuidadosa sobre os efeitos ambientais de cada viagem, assim como as pressões causadas pelo turismo excessivo.
Optando pela Baixa Temporada
Um dos pontos levantados por Strasdas é a escolha da época para visitar determinados destinos. Ele sugere que os turistas se perguntem: ‘É realmente necessário ir a Atenas no auge do verão, quando a cidade já está cheia a ponto de transbordar?’. Viajar na baixa temporada, sempre que possível, pode ser um primeiro passo para aliviar a pressão sobre os destinos turísticos. Além disso, ele propõe considerar alternativas menos conhecidas que possam ser igualmente atraentes, como optar pela cidade de Leipzig no lugar de Berlim ou a Filadélfia em vez de Nova York.
Strasdas também menciona o conceito de “subturismo”, que se refere a locais desejosos de receber um maior número de visitantes, mas que ainda não estão saturados. Petra Thomas, diretora-gerente do Forum Anders Reisen (Fórum de Viagens Alternativas), endossa essa ideia. Ela observa que, na Catalunha, no norte da Espanha, muitas áreas rurais estão ansiosas para receber turistas, enquanto Barcelona enfrenta problemas relacionados ao excesso de visitantes. As operadoras do Forum Anders Reisen comprometem-se a seguir critérios rígidos para garantir que seus clientes tenham férias livres de culpa, evitando destinos que estejam em risco de se tornarem superlotados.
O Impacto Positivo do Turismo
Para Thomas, é inegável que o turismo pode ter impactos positivos. Ele promove o intercâmbio cultural e oferece experiências que podem transformar a perspectiva dos viajantes. No entanto, ela também compartilha uma experiência pessoal que demonstra como comportamentos inadequados de turistas podem resultar em situações desconfortáveis. Durante uma visita à zona rural dos Camarões, ela presenciou companheiros de viagem fotografando casas locais de maneira desrespeitosa, chegando a invadir a privacidade das pessoas.
Thomas confessa ter se sentido envergonhada pela atitude desses turistas, o que levanta uma questão importante sobre a responsabilidade dos viajantes. Oliver Zwahlen, autor do blog Weltreiseforum, também reflete sobre as dificuldades morais que surgem durante as viagens. Ele percebe que a maioria dos turistas se esforça para agir de maneira responsável, mas que as condutas corretas nem sempre são claras.
Boicote: Uma Solução Eficaz?
Zwahlen aponta outro desafio enfrentado pelos viajantes: como lidar com países que não desejamos apoiar devido a seus governos ou sistemas políticos. Embora existam razões legítimas para boicotar determinados destinos, a realidade é que essa ação pode afetar desproporcionalmente as comunidades locais. Muitas vezes, são as pessoas comuns, como os vendedores de água ou funcionários de restaurantes, que sofrem as consequências desse boicote. Além disso, em regiões isoladas, o turismo pode representar uma chance de conexão com o mundo exterior.
Porém, Zwahlen aponta que não existem soluções fáceis para os dilemas enfrentados pelos viajantes. Ele destaca que, independentemente das escolhas feitas, a proteção ambiental continua sendo um desafio em qualquer viagem. As emissões geradas pelos voos, por exemplo, constituem uma preocupação significativa que não possui uma solução imediata.
Estratégias para Minimizar o Impacto Ambiental
Uma abordagem que Zwahlen tem adotado para minimizar os danos é viajar com menor frequência, mas por períodos mais longos. Ele só utiliza o avião quando não há outra alternativa e sempre que possível, opta por voos diretos em aeronaves mais novas, que são mais eficientes em termos de combustível.
O Forum Anders Reisen compartilha uma filosofia semelhante, buscando reduzir emissões sempre que possível. Petra Thomas explica que as empresas associadas tentam oferecer conexões terrestres, como ônibus e trens, sempre que viável. Mas, para destinos que só são acessíveis por via aérea, Strasdas recomenda consultar o índice de companhias aéreas da Atmosfair, que avalia a eficiência climática dessas empresas. Para qualquer emissão remanescente de carbono, é aconselhável considerar a compensação. Apesar das preocupações com a sustentabilidade, acredita-se que os benefícios de viajar ainda superem os desafios. “Viajar, em teoria, é uma situação em que todos saem ganhando”.
