Uma Simplicidade que Encanta
Localizada em Feira Nova, interior de Pernambuco, a Casa de Mainha traduz o encontro perfeito entre a arquitetura moderna e as raízes culturais da região. Este projeto notável, idealizado por Zé Vágner, arquiteto local e filho da moradora, foi destacado pelo ArchDaily como uma das melhores casas do mundo, ressaltando o valor da simplicidade e da sustentabilidade. A cidade, que abriga cerca de 20 mil habitantes e é conhecida pela produção de farinha de mandioca, serve como o cenário perfeito para essa obra que valoriza a história e a economia locais.
A edificação, erguida inicialmente na década de 1980 utilizando a técnica tradicional do adobe, passou por uma renovação que respeitou suas origens enquanto buscou modernizá-la. O novo projeto focou em otimizar custos e maximizar a eficiência, utilizando materiais disponíveis na própria região. Técnicas de ventilação cruzada e aproveitamento da luz natural foram implementadas, contribuindo para a redução do consumo de energia elétrica.
Atendendo às Necessidades Locais
A reforma foi elaborada com atenção às necessidades de Marinalva, mãe de Zé Vágner, e considerou a história do local. Com base nos princípios do arquiteto Armando de Holanda, a proposta utilizou predominantemente materiais naturais, priorizando uma construção que fosse econômica tanto em termos de execução quanto de manutenção. A mão de obra local, que é menos especializada, foi valorizada, destacando o conhecimento dos trabalhadores da região e a importância de preservar saberes populares.
Pelas limitações financeiras enfrentadas, a intervenção se concentrou na fachada e nos ambientes sociais, mantendo as paredes originais de adobe, o que também melhorou o desempenho térmico da casa. A principal modificação foi o aumento do pé direito em um dos trechos, alterando o design da cobertura e permitindo uma melhor circulação de ar através da fachada voltada para o oeste, equipada com cobogós.
Cinco ambientes que não eram utilizados foram demolidos para criar um espaço mais amplo, incluindo uma sala arejada, um jardim interno e um terraço aberto, que acentuaram a sociabilidade já presente na casa. As portas de entrada foram restauradas e agora contam com proteções feitas de placas de concreto pré-moldado, que também foram utilizadas como bancos no terraço.
Uma Conexão Cultural
O muro da fachada, mantido a pedido de Marinalva, possui uma trama de tijolos cerâmicos que lembra a maneira como as olarias organizam as peças para secagem, enquanto a base é revestida com placas de cerâmica originalmente destinadas a fornos de casas de farinha. Essa abordagem não só respeita a estética local, mas também reforça a conexão com a identidade cultural da região.
O projeto, desenvolvido pelo Studio Zé, representa uma harmonia entre a arquitetura contemporânea e elementos tradicionais, evidenciando o uso de ladrilhos típicos. Zé Vágner, graduado pela Universidade Federal de Pernambuco, enfatiza que a essência do projeto é pensar nas pessoas: “Arquitetura é feita de gente, com alma e história”, afirma.
Em suas redes sociais, Zé Vágner revelou um pouco de sua história familiar: “É a casa onde cresci, feita pelas mãos dos meus pais. Minha mãe, costureira, e meu pai, comerciante, construíram este lar aos poucos. Contudo, com o tempo, os espaços se tornaram apertados e insalubres, e agora, finalmente, minha mãe testemunha a transformação dessa casa”.
Reconhecimento Internacional
Os vencedores do prêmio arquitetônico, que contou com mais de 120.000 votos de mais de 100 países, foram selecionados ao longo de três semanas de votação pública. A 17ª edição deste prêmio celebra a diversidade de abordagens e culturas, refletindo uma ampla gama de estilos e materiais. Os laureados representam 14 países, incluindo Brasil, Alemanha, Canadá, Chile, Colômbia, Coreia do Sul, Dinamarca, Estados Unidos, Etiópia, Índia, Indonésia, Japão, Portugal e Vietnã.
Ficha do Projeto da Casa de Mainha
A Casa de Mainha exemplifica como a arquitetura pode ser uma poderosa ferramenta de transformação social e cultural, unindo tradição e modernidade em um espaço acolhedor e funcional.
