Impactos da Vulnerabilidade Social
A vulnerabilidade social é um fator crítico que afeta o crescimento de crianças indígenas e de algumas regiões do Nordeste, que apresentam uma média de altura inferior à de seus pares em outras partes do Brasil. Além disso, a altura dessas crianças está aquém das referências estipuladas pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Essa é uma das principais conclusões de um estudo que contou com a colaboração de especialistas do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fundação Oswaldo Cruz da Bahia (Cidacs/Fiocruz Bahia).
Entre os fatores que comprometem o crescimento, destacam-se problemas relacionados à saúde, alimentação inadequada, uma elevada incidência de doenças, condições socioeconômicas desfavoráveis e ambientes inadequados. Essa combinação de desafios também resulta em preocupantes estatísticas sobre o peso das crianças brasileiras, com aproximadamente 30% apresentando sobrepeso ou estejam perto disso. Isso indica que muitas crianças em situação de vulnerabilidade não apenas enfrentam desafios para um crescimento saudável, mas também estão expostas a fatores que aumentam o risco de excesso de peso.
Dados de Crescimento e Saúde Infantil
Os parâmetros de peso e altura da OMS para crianças com até 9 anos são baseados em curvas de crescimento (escore-z) que visam avaliar o desenvolvimento saudável. Para meninos dessa faixa etária, o peso médio varia entre 23,2 kg e 33,8 kg, enquanto a altura gira em torno de 124 cm a 136 cm. Já para as meninas, o peso médio oscila entre 23 kg e 33 kg, e a altura entre 123 cm e 135 cm.
O estudo analisou dados de aproximadamente 6 milhões de crianças brasileiras registradas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), no Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). Os pesquisadores realizaram um cruzamento entre condições de saúde e socioeconômicas dessa população, conforme explica Gustavo Velasquez, pesquisador associado ao Cidacs/Fiocruz Bahia e líder do estudo.
Durante a pesquisa, foram examinados tanto o peso quanto a estatura das crianças, analisando a adequação de ambos em relação às diretrizes da OMS para uma avaliação precisa do crescimento e estado nutricional. Velasquez enfatizou que as conclusões não implicam que todas as crianças indígenas e das regiões Norte e Nordeste sejam consideradas de baixa estatura. Entretanto, a proporção de crianças nessas categorias que se enquadram nessa classificação é maior.
Prevalência de Sobrepeso e Obesidade
O estudo também investigou a prevalência de crianças com excesso de peso e, entre elas, a porcentagem considerada obesa, utilizando o Índice de Massa Corporal (IMC) como referência. De acordo com Velasquez, não há atualmente um problema significativo de subnutrição, ao contrário de algumas populações das regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, que apresentam uma alta prevalência de sobrepeso.
Os dados revelam que, no Norte, 20% das crianças estão acima do peso, enquanto 7,3% são obesas. No Nordeste, a situação é semelhante, com 24% apresentando sobrepeso e 10,3% obesidade. Em contraste, as regiões Centro-Oeste e Sul também registram altos índices de sobrepeso e obesidade, com 28,1% e 32,6%, respectivamente.
Embora Velasquez observe que, em termos médios, as crianças brasileiras estão acompanhando as referências de altura da OMS, um alerta é feito quanto à crescente disparidade no peso. Isso sugere que, em algumas localidades, as crianças podem estar desenvolvendo problemas relacionados ao peso excessivo.
Importância da Alimentação e Acompanhamento
Outro aspecto crucial para um desenvolvimento saudável é a alimentação. O pesquisador destaca a crescente presença de alimentos ultraprocessados, que são considerados determinantes significativos para o aumento de peso, não apenas entre crianças, mas em toda a população. O estudo, publicado na revista JAMA Network em 22 de janeiro de 2026, também recebeu comentários de pesquisadores internacionais, ressaltando que o mundo deve aprender com a situação observada no Brasil.
Os especialistas apontaram que, comparativamente com outros países da América Latina, como Chile, Peru e Argentina, a problemática do sobrepeso e obesidade infantil no Brasil não é tão alarmante. Isso indica que, em um contexto global, o Brasil enfrenta um nível intermediário em relação a esses desafios.
