Reflexões sobre o Valor Público do Carnaval
A iniciativa de pesquisa sobre Carnaval e economia criativa, liderada pelo Ministério da Cultura (MinC), facilitou um encontro enriquecedor entre a renomada economista Mariana Mazzucato e especialistas de diversas áreas, como economia e cultura. O evento, realizado no último domingo (8) na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, abordou o Carnaval sob a ótica de evidências qualitativas, experiências locais e os desafios enfrentados na gestão pública.
“O que estamos vendo aqui é que o Carnaval produz um valor maior do que aquilo que costuma aparecer nas métricas. Ele gera coesão social, habilidades, redes e conhecimento, e isso é um investimento de longo prazo”, ressaltou Mazzucato. Para a economista, é fundamental que os governos compreendam a diferença entre custo e investimento, bem como a importância de medir o que realmente informa o bem-estar da sociedade: “Custa mais limpar a bagunça depois. O custo da inação é maior do que o custo da ação”, completou.
Marcaram presença na reunião nomes como Alexandre Santini, presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa; Rafaela Bastos, gestora pública e passista da Estação Primeira de Mangueira; Lia Calabre, especialista em políticas culturais; Ana Célia Castro (UFRJ/Colégio Brasileiro de Altos Estudos); Lavínia Barros de Castro (BNDES) e Carlos Pinkusfeld Bastos (UFRJ/Instituto de Economia). Também participaram a secretária de Economia Criativa, Cláudia Leitão, e a secretária de Articulação Federativa e Comitês de Cultura, Roberta Martins, além de representantes do MinC.
Investigando Microeconomias Invisíveis
A missão é resultado da colaboração entre o MinC e o Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP) da University College London, onde Mazzucato exerce sua liderança. A cooperação conta ainda com o apoio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (Unesco) e se desdobrará em atividades no Rio de Janeiro, Brasília e Salvador.
Durante o encontro, foram discutidas práticas de economia circular, reaproveitamento de materiais e inovação ambiental presentes no ecossistema carnavalesco, destacando o Carnaval como um campo fértil para soluções contemporâneas. Um dos destaques foi o conceito de “microeconomia das passistas”, introduzido por Rafaela Bastos, que retrata o investimento anual, as redes de trabalho e a circulação de renda que sustentam mulheres e jovens durante a festa, mas que permanecem invisíveis nas estatísticas oficiais. “Nós do Carnaval não somos uma atividade econômica. Não existe um CNAE para escola de samba ou para mestre-sala e porta-bandeira. Isso gera problemas previdenciários e de formalização, afetando a proteção social de quem trabalha durante todo o ano”, explicou Rafaela.
Carnaval: Um Fenômeno Cultural e Político
Rafaela também apresentou o projeto Carnaval de Dados, desenvolvido para visibilizar os investimentos e a operação urbana da festa, organizando o impacto do Carnaval em três dimensões: serviços (trabalho e renda nas cadeias culturais), infraestrutura (legados permanentes) e desenvolvimento humano (formação, identidade e inovação social).
A pesquisadora Lia Calabre, ao abordar sua análise das políticas culturais, ressaltou que não deve-se ver o Carnaval como um objeto isolado, mas sim como parte de um contexto de políticas públicas. “O Carnaval é um fenômeno cultural inserido em um campo mais amplo, revelando dinâmicas e desafios centrais para a formulação de políticas públicas de cultura”, destacou.
Redefinindo o Valor Público e as Políticas Culturais
No decorrer da conversa, Mariana Mazzucato enfatizou que a missão tem como objetivo unir indicadores econômicos, como arrecadação e multiplicadores, a uma análise mais ampla sobre os efeitos intergeracionais e multissetoriais. “Não devemos descartar os números estáticos, eles são importantes. No entanto, precisamos ir além deles para captar o impacto do Carnaval na cidade e nas capacidades públicas”, afirmou.
A secretária Cláudia Leitão reforçou a necessidade de uma abordagem mais integrada da cultura, afirmando: “O Carnaval revela os limites de uma visão setorial da cultura. Ele mobiliza trabalho, saberes, território e inovação social”. Já a secretária Roberta Martins destacou a importância de transformar o conhecimento gerado nos territórios em recursos permanentes para o Estado. “Escutar a comunidade é fundamental para que a gestão pública formule políticas mais eficazes e conectadas com a realidade”, disse.
A Fundação Casa de Rui Barbosa foi reconhecida como um espaço fundamental para articular pesquisa, memória e políticas públicas. “Pensar o Carnaval a partir da pesquisa é reconhecer que a cultura produz conhecimento sobre o Brasil real”, concluiu Alexandre Santini, presidente da fundação.
A missão do MinC segue agora para Brasília e Salvador, com o intuito de ampliar o diálogo sobre diferentes modelos de Carnaval, reforçando a importância da festa como infraestrutura cultural vital para o desenvolvimento urbano e social do Brasil.
