Uma Missão Cultural no Coração do Carnaval
A economista Mariana Mazzucato destaca a importância da organização coletiva dos blocos de Carnaval, afirmando: “Quando observamos como os blocos se organizam, ensaiam e criam coletivamente, vemos uma dinâmica extraordinária de formação de habilidades, redes de trabalho, coesão social e participação comunitária.” A declaração resume a experiência da imersão promovida pelo Ministério da Cultura (MinC) entre os dias 6 e 8 de fevereiro em locais emblemáticos do Carnaval carioca. A missão faz parte de um projeto maior que busca investigar o Carnaval brasileiro como uma política pública estruturante e uma infraestrutura cultural que, além de motivar a economia criativa, envolve as comunidades e fortalece as redes de trabalho ao longo do ano.
Durante a visita, a comitiva do MinC esteve no famoso bloco Simpatia É Quase Amor, localizado em Ipanema. Reconhecido como símbolo de resistência política e de identidade cultural, o Simpatia se destaca por promover a participação política e a construção coletiva, congregando músicos, foliões, produtores e demais trabalhadores da cultura de maneira dinâmica e renovada a cada temporada.
Ensaio e Criatividade na Função Progresso
Em um momento seguinte, Mazzucato e seu grupo acompanharam o ensaio de pré-Carnaval da Bangalafumenga, uma banda e bloco conhecidos pela fusão de funk, samba e outros ritmos brasileiros. O evento aconteceu na Fundição Progresso, um espaço que possibilitou a observação da dinâmica criativa e organizacional dos blocos. Durante a visita, a economista ressaltou a pluralidade dos territórios, considerando o Carnaval um verdadeiro laboratório de inovação musical e um ambiente fértil para a formação de redes criativas e geração contínua de trabalho cultural.
Mazzucato enfatizou que a vivência nos blocos de rua e seus pontos urbanos de cultura revela o valor público inerente ao Carnaval. “É uma economia viva, fundamentada no conhecimento, na cooperação e na criação coletiva. Esta é uma dimensão que os governos frequentemente ainda não reconhecem e valorizam adequadamente”, afirmou.
Parceria com a Fundição Progresso
A missão é resultado da colaboração entre o MinC e o Institute for Innovation and Public Purpose (IIPP) da University College London (UCL), onde Mazzucato é diretora. Essa cooperação conta também com o apoio técnico da UNESCO e prevê atividades em importantes cidades como Rio de Janeiro, Brasília e Salvador.
A Fundição Progresso, um ícone da cultura independente carioca desde 1982, surgiu da mobilização para preservar uma antiga área industrial na Lapa. Com gestão e investimento total de fontes privadas, o espaço não recebe verbas diretas do governo para sua manutenção, equilibrando atividades lucrativas com iniciativas culturais de acesso popular.
De acordo com Cristina Nogueira, gestora da Fundição, a sustentabilidade do local depende desse equilíbrio. “A Fundição se mantém a partir de suas próprias atividades culturais. Eventos maiores ajudam a financiar ensaios, formações e projetos menores que não conseguiríamos realizar sozinhos”, explicou.
Iniciativas Ambientais e a Cultura Sustentável
Vanessa Damasco, responsável pelos projetos da Fundição, detalhou a relação com os blocos, ressaltando uma coordenação cultural interna que avalia as demandas conforme a viabilidade técnica. “Quando há venda de ingressos, como no ensaio da Bangalafumenga, parte da receita fica com a casa. Em outros casos, calculamos os custos básicos para acolher os blocos, garantindo a operação do espaço”, afirmou.
Além das atividades culturais, o espaço destaca-se por suas iniciativas ambientais inovadoras, como o reuso de água da chuva e a implementação de um jardim de chuva, que utiliza técnicas sustentáveis para mitigar alagamentos urbanos.
O Carnaval como Político Cultural
Para Mazzucato, a experiência em território carnavalesco desafia as análises econômicas tradicionais, que muitas vezes veem a cultura apenas como um gasto. “O Carnaval nos força a repensar o que deve ser financiado e como”, disse. Ela ressaltou que a festa promove uma interconexão de trabalho, conhecimento e inovação que merece o reconhecimento das políticas públicas. “Muitas pessoas e famílias sobrevivem do Carnaval. Compreender o valor público das artes e da cultura é essencial para garantir um financiamento digno, ouvindo as comunidades que geram esse imenso valor coletivo”, completou.
Início de uma Nova Era
Esta missão, que abrange Rio de Janeiro, Brasília e Salvador, marca o início oficial da parceria entre o MinC e o IIPP. O ponto alto será a conferência “O valor público das artes e da cultura”, programada para Brasília em 9 de fevereiro e em Salvador em 10 de fevereiro. Esta iniciativa integra a estratégia do Governo do Brasil para reconfigurar a cultura como um eixo essencial no desenvolvimento do país, no planejamento estatal e no fortalecimento das capacidades públicas.
Quem é Mariana Mazzucato?
Mariana Mazzucato (PhD, CBE, FREcon) é uma destacada professora de Economia da Inovação e de Valor Público na University College London (UCL), onde também é Diretora Fundadora do UCL Institute for Innovation & Public Purpose (IIPP). Autora de livros renomados como “O Estado Empreendedor” e “O Valor de Tudo”, Mazzucato é uma voz influente no debate sobre o papel do governo na economia e a importância da inovação para o desenvolvimento sustentável.
