Um Marco de Resistência e Luta dos Povos Indígenas
No dia 7 de fevereiro, o Brasil celebra o Dia Nacional de Luta dos Povos Indígenas. Esta data é mais do que uma simples efeméride, é um lembrete poderoso da resistência, da organização política e da luta pelos direitos dos povos originários. Ela reforça a importância dos indígenas na construção da história, cultura e sociedade brasileira, além de evidenciar a necessidade urgente de políticas públicas que reconheçam e respeitem essa diversidade.
Dentro desse contexto, o Ministério da Cultura (MinC) vem intensificando ações voltadas à valorização das culturas indígenas. Essas políticas dialogam diretamente com os territórios, promovendo o protagonismo dos povos originários e reconhecendo a cultura como parte fundamental da vida e da preservação ambiental.
Um dos principais marcos dessa agenda é a realização da sexta edição da Teia Nacional dos Pontos de Cultura, a qual será realizada pela primeira vez fora de uma capital, mais especificamente no município de Aracruz, no Espírito Santo. Essa escolha é significativa, especialmente após um hiato de 12 anos.
O evento, agendado para ocorrer entre 24 e 29 de março, destaca-se por acontecer em uma região historicamente habitada pelas etnias Tupiniquim e Guarani, reforçando o papel dos povos originários no debate cultural e ambiental. Aracruz é o único município do estado que possui Terras Indígenas demarcadas e abriga 12 aldeias, concentrando a maior população indígena do Espírito Santo. Ao escolher esse território como sede da Teia, o MinC reafirma seu compromisso com uma política cultural descentralizada e sensível às realidades locais.
“A realização da Teia Nacional em território indígena reafirma um princípio central da política cultural do Ministério da Cultura: não há cultura viva sem território, sem escuta e sem o protagonismo dos povos que produzem essa cultura. Ao levar a Teia para Aracruz, reconhecemos a centralidade dos povos indígenas no debate cultural e no enfrentamento das urgências climáticas, ambientais e sociais do nosso tempo”, declara Márcia Rollemberg, secretária de Cidadania e Diversidade Cultural, responsável pela organização do evento.
Consultora do MinC para a Teia em Aracruz, Ará Martins destaca que a escolha do território indígena para sediar o encontro é um gesto político e simbólico de valorização dos povos originários. “O Brasil sempre foi habitado por povos indígenas. Hoje, estamos aqui resistindo e buscando espaço para que todos possam mostrar sua cultura. Esperamos que a Teia possa representar o modo de vida do povo Guarani e Tupiniquim”, ressalta.
Reconhecimento e Valorização das Culturas Indígenas
Jucelino Tupiniquim, consultor do MinC e liderança indígena em Aracruz, acredita que a Teia Nacional fortalece o reconhecimento do território Tupiniquim e Guarani, além das práticas ancestrais que sempre foram parte da vida comunitária. No entanto, ele também aponta os desafios enfrentados por essas comunidades, devido ao intenso histórico de industrialização na região.
“Estamos em um território brasileiro muito afetado pela indústria, cercados por pelo menos 36 empreendimentos que impactam diretamente o nosso espaço. Essa realidade muitas vezes provoca um afastamento das características culturais tradicionais”, explica Jucelino.
Para Ará, realizar a Teia fora das capitais e em um território indígena permite uma vivência mais rica do que significa cultura para esses povos. “Quando a pessoa vem para o território, ela sente o que o local representa: o cuidado com a natureza, com as crianças, com os anciãos e com a cultura”, afirma.
Os Pontões de Culturas Indígenas são uma articulação estratégica do Programa Cultura Viva, do Ministério da Cultura, e visam ir além do apoio pontual a iniciativas locais. Esses Pontões funcionam como estruturas de conexão que buscam integrar diferentes Pontos de Cultura, ampliar o acesso às políticas públicas e garantir autonomia aos povos indígenas para preservar e atualizar suas práticas culturais.
Entre suas principais funções está o mapeamento e valorização das culturas populares e tradicionais. O Pontão de Culturas Indígenas tem um papel crucial na identificação de grupos e coletivos em todo o Brasil, já reconhecendo mais de 1.300 iniciativas culturais indígenas e ampliando sua visibilidade e reconhecimento institucional.
O coordenador de Comunicação do Pontão de Culturas Indígenas, JP Îasanã Tupinambá, reflete sobre a importância da cultura em territórios indígenas. “Fazer cultura aqui é garantir uma troca saudável entre indígenas e não indígenas, uma experiência essencial para desconstruir o pensamento colonial ainda presente na sociedade civil”, afirma.
Nos últimos anos, o Pontão foi responsável pela formação de 20 jovens como agentes Cultura Viva e pelo cadastro de 156 coletivos culturais, representando 75 etnias indígenas. Isso demonstra o compromisso em fortalecer as identidades coletivas e o protagonismo dos povos originários nas políticas culturais.
Ará também defende que políticas como a Cultura Viva ampliam o acesso dos povos indígenas a iniciativas públicas e fortalecem o protagonismo comunitário. “Com a Cultura Viva chegando ao território, conseguimos mostrar nosso trabalho, nosso modo de vida e nossa cultura. Todos são bem-vindos, desde que haja respeito”, conclui.
