Reflexões sobre o Turismo em João Pessoa
Em João Pessoa, a transformação da cidade é um tema que não passa despercebido. O crescimento populacional e a crescente presença de turistas têm gerado impactos significativos na vida da população local, refletindo diretamente na infraestrutura e na qualidade de vida. A quantidade de resíduos, especialmente de esgoto, e os altos preços de bens de consumo são apenas alguns exemplos do desafio que a cidade vem enfrentando. É evidente a falta de planejamento para lidar com o turismo em alta temporada, o que levanta questões essenciais sobre a vivência da população em meio a esse cenário.
Para abordar esses desafios, uma série de cinco textos será elaborada, focando nas questões de saneamento, sustentabilidade ambiental, desigualdade social, mobilidade urbana e turismo em massa, com uma abordagem sociológica que busca entender a complexidade do fenômeno.
João Pessoa é frequentemente retratada como um modelo de turismo “sustentável”, atraindo visitantes com suas belas praias e sendo considerada a cidade mais oriental das Américas. Essa imagem positiva tem contribuído para seu posicionamento no circuito nacional de turismo. Contudo, ao mesmo tempo em que o turismo cresce, surgem contradições que afetam a realidade urbana e a vida dos moradores. O turismo, associado ao mercado imobiliário, não é apenas uma atividade econômica, mas um fator que molda a cidade, trazendo à tona impactos sociais e ambientais que exigem uma análise crítica e ações decisivas dos órgãos responsáveis.
Aumento Populacional e Desafios Estruturais
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a Paraíba teve um crescimento populacional superior à média nacional e da região Nordeste, com João Pessoa se destacando entre as capitais que mais cresceram proporcionalmente. Esse aumento populacional é em parte atribuído a aposentados e profissionais que estão optando pelo trabalho remoto, atraídos pela qualidade de vida alardeada nas campanhas turísticas.
A literatura crítica em sociologia urbana aponta que o turismo de massa não deve ser visto como um mero efeito colateral, mas como um elemento que estrutura o modelo urbano contemporâneo. A realidade em João Pessoa exemplifica a discrepância entre o planejamento urbano e a vivência social, onde as áreas com maior investimento se concentram na orla e no centro histórico, enquanto bairros como Gramame, que cresceu com mais de 40 mil novos moradores na última década, permanecem em condições de déficit estrutural.
Financeirização da Moradia e Desigualdades Urbanas
A expansão dos empreendimentos turísticos e imobiliários em João Pessoa tem gerado uma financeirização da moradia, onde o espaço urbano é transformado em um ativo financeiro. Essa mudança tem elevado os preços e promovido a expulsão indireta de moradores de baixa renda, especialmente nas áreas mais valorizadas da cidade. Estudiosos como Lefebvre e Harvey apontam que o turismo predatório e a especulação imobiliária podem levar à negação do direito à cidade, onde o espaço urbano é moldado por interesses privados em detrimento do uso social.
Essa dinâmica cria uma contradição fundamental: o turismo depende de um ambiente saudável e de qualidade de vida, mas a falta de planejamento e a ausência de participação social prejudicam os ecossistemas e a infraestrutura urbana. João Pessoa vive um dilema constante entre ser um local de vida para sua população e um terreno de lucro para investidores e elites locais, cujos interesses muitas vezes se sobrepõem aos das comunidades residentes.
Problemas Ambientais e a Responsabilidade do Poder Público
A situação se agrava durante a alta temporada, quando se observam episódios de despejo irregular de esgoto nas praias, como as de Tambaú e Cabo Branco. Denúncias de empreendimentos, como o Bar do Cuscuz e o Hotel Nord Easy, que têm sido identificados como responsáveis por esse tipo de poluição, evidenciam a dificuldade dos órgãos públicos em controlar essas práticas. Esses casos levantam sérias questões sobre possíveis conflitos de interesse e a aplicação da legislação ambiental na cidade.
A narrativa do turismo sustentável, embora promova práticas de preservação e a valorização dos recursos naturais, acaba por ocultar as relações de poder que organizam a utilização do território. O conceito de sustentabilidade, nesse contexto, muitas vezes serve como uma retórica que não se traduz em ações efetivas de controle urbano e justiça ambiental.
Desafios para o Futuro
Frente a esse cenário, o desafio para os governos municipal e estadual da Paraíba vai além de tornar o turismo mais eficiente ou sustentável. É fundamental reverter o foco do debate: a cidade deve ser tão boa para seus moradores quanto é para o turismo de massa e a especulação imobiliária. Essa reflexão é essencial para criar uma cidade que atenda às necessidades de todos os seus habitantes e que promova um desenvolvimento verdadeiramente sustentável.
