O Impacto da Bactéria Wolbachia na Transmissão de Arboviroses
Pesquisadores brasileiros têm explorado uma abordagem inovadora para combater doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, como dengue, Zika e chikungunya, através da soltura de mosquitos infectados com a bactéria Wolbachia. De acordo com estudos, essa técnica pode resultar em uma redução significativa nos casos dessas doenças: até 69% na dengue, 56% na chikungunya e 37% na Zika. No entanto, o sucesso dessa estratégia depende de fatores locais que influenciam a capacidade da bactéria de se espalhar e diminuir a transmissão.
A Wolbachia é um microrganismo intracelular que infecta naturalmente cerca de 70% das espécies de insetos, mas até recentemente não havia sido detectada em Aedes aegypti. Após a infecção do mosquito com a bactéria, foi observado que sua habilidade de transmitir os vírus causadores das arboviroses ficava comprometida. Desde então, iniciativas têm sido realizadas em diversas regiões do Brasil e do mundo, com o objetivo de substituir as populações nativas do mosquito, que são altamente competentes na transmissão dos vírus, por outras que sejam resistentes a eles.
Experiências Internacionais com a Wolbachia
Vários países tropicais, incluindo Austrália, Colômbia, Indonésia e Vietnã, já implementaram a estratégia de soltura de Aedes aegypti infectados com Wolbachia em áreas urbanas. No Brasil, um país que historicamente registra o maior número de casos de dengue, as solturas começaram em 2014, inicialmente no Rio de Janeiro e em Niterói, e se estenderam para outras cidades como Campo Grande, Petrolina e Belo Horizonte.
Os resultados são promissores: em locais como Niterói, a incidência de dengue caiu em 69%, enquanto em Campo Grande houve uma redução de 63%. Entretanto, no Rio de Janeiro, o impacto foi menos significativo, com uma diminuição de 38% nos casos de dengue, o que pode ser atribuído à baixa presença da Wolbachia entre os mosquitos coletados na área.
Fatores que Influenciam o Sucesso da Estratégia
A eficácia da Wolbachia em controlar a transmissão dos vírus está sujeita a diversas variáveis, incluindo condições climáticas, a densidade da população de Aedes aegypti selvagens e o uso de inseticidas. Também é crucial a compatibilidade genética entre os mosquitos soltos e as populações nativas, uma vez que as fêmeas precisam sobreviver o suficiente para se reproduzir e transmitir a bactéria à próxima geração.
Um desafio adicional é a produção em massa de mosquitos com Wolbachia por meio de biofábricas, essenciais para a combinação de solturas em larga escala. Experiências iniciais mostraram que a prevalência da Wolbachia nos mosquitos pode cair rapidamente após a soltura, apontando para a necessidade de estratégias que garantam a sobrevivência dos mosquitos em ambientes com inseticidas.
A Diversidade Genética do Aedes aegypti
Estudos revelam que existem pelo menos cinco grupos genéticos distintos de Aedes aegypti no Brasil, cada um adaptado a diferentes ambientes. A introdução de uma linhagem única de mosquitos com Wolbachia pode levar à homogeneização genética, o que pode resultar em características indesejáveis, como resistência a inseticidas ou atratividade ao ser humano.
Além disso, a diversidade genética deve ser considerada para maximizar a eficácia das solturas. A resistência à infecção viral conferida pela Wolbachia pode variar entre populações, e os custos biológicos associados à infecção também podem impactar a sobrevivência e reprodução dos mosquitos.
Preservando a Diversidade Genética para o Sucesso da Estratégia
É fundamental que a diversidade genética das populações de Aedes aegypti seja preservada durante as solturas, a fim de aumentar as chances de sucesso na luta contra as arboviroses. O estudo que fundamenta essas informações teve o suporte de importantes agências de fomento, como a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa no Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
Em um cenário onde milhares de brasileiros são afetados anualmente pelas arboviroses, a estratégia de usar a Wolbachia representa uma esperança. Contudo, a implementação cuidadosa e informada é essencial para garantir que esta inovadora abordagem contribua efetivamente para a saúde pública.
